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Opinião
22/07/2021 - 06h29
O homem sem nome da cidade sem vida
Dartagnan da Silva Zanela
 

Num desses dias dessa semana que findou, estava eu, como bom brasileiro que sou, torrando parte do meu precioso tempo cutucando a esmo o meu celular, dando uma olhadela aqui e acolá naquilo que estava sendo exibido através do Instagram.

Lá pelas tantas, eis que vejo uma foto publicada pelo perfil “C. S. Lewis Brasil” que literalmente roubou minha atenção e, até o momento em que estou escrevinhando essas linhas, não me devolveu.

De tanto que a tal foto me impressionou que resolvi compartilhar a mesma, tanto nos stories quanto no feed do meu perfil na referida rede social.

Mas, afinal de contas, que fotografia era essa? O que havia de tão especial nesse trem fuçado para merecer o riscado torto e mal acabado de uma pena escrevinhante? Apenas duas coisas: uma dose de simplicidade com duas medidas de verdade.

Era uma foto que havia sido tirada num ônibus circular qualquer, de uma cidade qualquer deste país de meu Deus. Nela aparecia apenas um homem que, provavelmente, estava voltando de seu soturno dia de trabalho.

O abençoado estava calçando uma botina de construção civil, vestia uma calça de brim, apropriada para serviços nesse setor, e usava uma camisa surrada pelas mãos de Cronos. A calça e bem como a botina estavam rajadas de algo que parecia ser tinta branca; logo, provavelmente, nosso ilustre desconhecido poderia ser um pintor.

Seu rosto esguio estava voltado para o horizonte, olhando para o vazio; e, seu olhar parecia estar, paradoxalmente, perdido e, ao mesmo tempo, tão altivo quanto decisivo, como há de ser o olhar de todo e qualquer aprendiz de sonhador.

Agora, a peça que faltava e que dá toda a singeleza para a imagem que chegou até minhas vistas: o senhor, cujo nome não sabemos, carregava em suas mãos um botão de rosa que era transportado com toda a delicadeza que é exigido pelas pétalas da espinhosa planta que, por sua deixa, seria entregue para sua flor, cujo nome nós também não sabemos.

Aparentemente nada o perturbava. Nada. Nem mesmo a pessoa que, inadvertidamente o retratou e compartilhou sua efígie para todo o mundo ver o que significa ser um homem transbordando de amor.

Quando Lavelle nos fala que o amor é um estado do ser, e não apenas e tão somente um sentimento, é disso que ele está falando.

Ao vê-lo, por meio do retrato, fiquei pensando, tentando imaginar: quem seria esse homem? Como será que é sua vida? Para quem ele estava levando aquele modesto presente que não tem preço? Quais palavras estariam acompanhando a entrega do regalo? Quais sonhos eram e são embalados no coração desse senhor que, com um olhar perdidamente apaixonado, seguia seu destino tomando aquela lotação? Perguntas e mais perguntas que não devem, por certo e por óbvio, ser respondidas por mim, nem por ti, amigo leitor.

O que importa é que diante de nós estava a imagem de um homem comum, com sonhos comuns, de hábitos comuns vividos em uma vida comum, indo ao encontro duma mulher comum que, diante de seus olhos, é espetacular, e faz sua vida ser toda especial.

Por essas e outras que Chesterton, de forma magistral, nos lembra que a coisa mais incrível, mais maravilhosa que existe no mundo é um homem comum e, nós, “modernos homens modernosos”, frequentemente nos esquecemos disso, devido o nosso apego atávico às sandices infindáveis de ideologias mil que prometem incontáveis mundos melhores possíveis de feições utópicas sem que, necessariamente, tenhamos que nos tornar pessoas minimamente melhores. Por isso, somos o que somos, infelizmente.

E a imagem desse ilustre anônimo, com sua vida comum, vivida com o coração inundado de gentileza, rasga o véu desse simulacro que é a vida porcamente vivida por nós e lembra-nos o quão simples é sermos gente quando permitimos que o amor ilumine e guie os nossos gestos.

Uma flor carinhosamente entregue para mulher, um punhado de balas dado para as crianças que passam o dia brincando nas ruas do nosso bairro, uma ligação telefônica feita para alguém, que há muito não vemos, somente para jogar conversa fiada e assim por diante.

Enfim, um gesto qualquer, por pequenino que seja, quando é realizado sob o guiamento do amor, sem querer querendo, acaba ganhando a envergadura e o poder transformador de um milagre, como a flor carregada pelo ilustre homem desconhecido do ônibus da cidade sem nome.


Nota do Editor: Dartagnan da Silva Zanela é professor e ensaísta. Autor dos livros: Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos - ensaios sociológicos; mantém o site Falsum committit, qui verum tacet.
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