Shhhhhh. Fala baixo, senão eu grito e acordo os espíritos da racionalidade. Aí as tramas perdem a consistência. Destramam. Ou seria melhor destrambelham? Ninguém sabe de nada, ninguém ouviu nada. Nem os previsíveis e tradicionais boatos são lançados aos ventos da maledicência. Todos permanecem calados espreitando a nudez de Lady Godiva. Pelas frestas. Escondida do Sol a cidade espera Godot. Os quase pelados da orla, nus com as mãos nos bolsos nada dizem. Em boca fechada não entra areia. Saí de Ubatuba cutucando onça, mesmo sabendo que onça avonça. Voltei imaginando tumultos, tempestades, movimentos de massa, o MST invadindo cafés, restaurantes, casas suspeitas. Qual o quê. A onça não avonçou, muito pelo contrário, calou. Em Ubatuba tudo é possível, a cidade supera qualquer obra de ficção. Dias Gomes esteve de passagem e quase morreu de apoplexia. Fugiu gritando: - Me tirem daqui, me tirem daqui. Quando recuperou a razão, perto de Caraguatatuba, disse que se o mundo descobrisse Ubatuba o teatro do absurdo acabaria. A partir desse dia o dramaturgo dava gritos lancinantes de terror quando ouvia qualquer menção a esta bela e calorosa cidade. Sobre os movimentos da política, existem especulações. E tensão no ar, eletricidade capaz de arrepiar pelos e levantar cabelos. Se você quiser uma opinião sobre o que há, vá até a esquina mais próxima. Tem gente cochichando!
Nota do Editor: Sidney Borges é jornalista e trabalhou na Rede Globo, Rede Record, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo (Suplemento Marinha Mercante) Revista Voar, Revista Ícaro etc. Atualmente colabora com: O Guaruçá, Correio do Litoral, Observatório da Imprensa e Caros Amigos (sites); Lojas Murray, Sidney Borges e Ubatuba Víbora (blogs).
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