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COLUNISTA
Marcelo Sguassábia
04/11/2019 - 06h41
Existe música após a morte
 
 
Para o meu pai

No mundo inteiro, é cada vez maior o número de negócios que sobrevivem saudavelmente às custas da morte. Um verdadeiro paradoxo, se a gente levar em conta a expectativa de vida aumentando dia a dia.

Uma empresa da Inglaterra, por exemplo, faz enorme sucesso produzindo discos de vinil onde se misturam à matéria-prima, no momento da prensagem, as cinzas de pessoa falecida. Pode-se usar todo o conteúdo da cremação em um único LP de 12 polegadas ou dividir os restos mortais em um número maior de cópias, para distribuição à família e aos amigos mais chegados.

A ideia traz os entes queridos, do túmulo frio e quase sempre largado aos vermes, para a sala de estar. De um jeito natural, nostálgico e reconfortante. Em lugar do jazigo da família, uma seleta e adorada coleção de discos na estante. Designers, diretores de arte, ilustradores e fotógrafos também devem faturar alto com as capas de disco, que certamente variam de supercloses do rosto do falecido a panorâmicas do caixão no velório, cercado de velas e coroas de flores.

Uma outra vantagem do mausoléu sonoro é o futuro morto deixar as coisas dispostas conforme sua vontade, ao invés de permitir que a família resolva tudo a seu modo - o que quase sempre não coincide com o que o defunto aprovaria. Pode-se elaborar previamente a playlist antes do óbito, evitando que a seleção da parentela divirja da sua compilação.

A gravação de músicas, no entanto, não seria a única possibilidade. Igualmente viável é o registro da voz do falecido, deixando uma única e longa mensagem à família ou dedicando uma faixa a cada um dos parentes mais próximos - com conselhos, histórias, advertências, poemas e por aí vai.

Há outras ideias, lindas e criativas, para perpetuar de alguma forma os nossos mortos através de suas cinzas. Virar árvore, lápis, fogo de artifício, tatuagem (as cinzas são misturadas ao pigmento) e até mesmo pó de ampulheta, uma alternativa cheia de simbologia e que desperta profundas reflexões filosóficas.

Mas o melhor mesmo parece ser o vinil. Imaginando agora um hipotético disco com as cinzas do meu saudoso pai, o bolachão poderia começar com “E o destino desfolhou”, seu Greatest Hit, e ter como faixa final “Despedida”, canção do Roberto que ele adorava. Perfeita para um último e não tão definitivo adeus.


Nota do Editor: Marcelo Pirajá Sguassábia é redator publicitário em Campinas (SP), beatlemaníaco empedernido e adora livros e filmes que tratem sobre viagens no tempo. É colaborador do jornal O Municipio, de São João da Boa Vista, e tem coluna em diversas revistas eletrônicas.
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