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COLUNISTA
Marcelo Sguassábia
14/01/2019 - 07h21
Os tuk-tuks de Havana
 
 

Pois então, ó pá. Não é novidade que o tuk-tuk encontrou em Portugal um habitat tão natural quanto sua Tailândia nativa. Pode-se dizer que ele está para Lisboa da mesma forma que o metrô está para Londres.

Raúl Castro que o diga, até porque testemunhou de perto essa realidade, nas recentes férias que gozou na capital lusitana.

Sabe-se lá por que estranhos circuitos neurológicos, os tuk-tuks dispararam na cabeça de Raúl uma improvável associação entre um problema premente de Cuba e outro da Venezuela.

No caso de Cuba, o lixão a céu aberto formado pelos carrões rabo-de-peixe anos 50, do tempo do Fulgencio Batista, que inexplicavelmente continuam rodando por Havana.

Já na combalida economia venezuelana, um cafezinho custa o equivalente a 3.000 litros de gasolina. Mesmo com o aumento de 6.000% no preço dos combustíveis decretado pelo Maduro em 2016, abastecer com 50 litros de gasolina aditivada o tanque de um Thunderbird, um Cadillac, um Plymouth ou um Bel-Air custa apenas R$ 1,20. Imagine quanto custava antes dos 6.000% de reajuste... é de se supor que o frentista oferecesse dinheiro a quem parasse para completar.

E foi ali, entre um pastel de Belém e um cálice de Ginjinha, que ocorreu ao maninho de Fidel o luminoso estalo. Alguns agentes da revolução se infiltrariam entre os fabricantes de tuk-tuk portugueses, trariam o know-how para Cuba e o governo de la isla se encarregaria de desativar algumas manufaturas de charuto para nelas instalar unidades de produção de tuk-tuks em larga escala - diretamente exportadas para o mercado venezuelano.

Uma vez na Venezuela, os tuk-tuks seriam encaminhados a parques fabris para a instalação de buzinas, onde a mão de obra utilizada seria 100% composta pelos médicos cubanos do extinto “Mais Médicos” brasileiro. Tal contingente, até o momento com uma mão na frente e outra atrás, seria “contratado” por Maduro e sua turma a 10 pesos/mês, sendo 2 pesos pagos ao médico e 8 retidos na fonte para envio a Cuba. Claro que essa triangulação logística para colocação de vuvuzelas bolivarianas seria dispensável, não fosse o empenho de Cuba em descobrir algum estratagema que desse continuidade à rentável entrada de recursos que o “Mais Médicos” proporcionava, no tempo das dilmas gordas.

Orgulhoso de sua perspicácia, Castro mandou ordens ao pau mandado que entrou em seu lugar para que seguisse à risca o plano arquitetado em meio às vielas lisboetas, sob risco de destituí-lo sumariamente caso se recusasse a colaborar.

Assim, a Venezuela, que tem gasolina saindo pelo ladrão, ficaria com os Bel-Airs e Thunderbirds e Cuba com os tuk-tuks. Faz sentido. O jeitão turístico dos tuk-tuks combinam muito mais com as belezas naturais de Havana do que aquelas imensas barcas enferrujadas e anacrônicas, sem peças de reposição e média de consumo de 500 metros por litro.

São vários os planos da Venezuela para utilização da sucata automotiva, além do mercado interno. Antes mesmo de implementada a ideia, fontes ligadas ao governo do bigodudo Nicolás já dão como certa a venda de um lote de 75 Oldsmobiles ano 1954 à cúpula do Partido dos Trabalhadores brasileiro - que há pouco teve de se desfazer de sua frota de Audis e Mitsubishis para saldar dívidas da milionária campanha de Haddad à presidência.


Nota do Editor: Marcelo Pirajá Sguassábia é redator publicitário em Campinas (SP), beatlemaníaco empedernido e adora livros e filmes que tratem sobre viagens no tempo. É colaborador do jornal O Municipio, de São João da Boa Vista, e tem coluna em diversas revistas eletrônicas.
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