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COLUNISTA
Marcelo Sguassábia
22/05/2017 - 07h15
Ladrão prevenido vale por dois
 
 

Se você pensa que quem arrisca a vida é bombeiro, PM da favela da Rocinha ou dublê do Chuck Norris é porque nunca foi ladrão na vida. Nossa categoria deveria ter direito a adicional de insalubridade, tamanhos os riscos a que nos expomos.

Em nossa estafante labuta, os verdadeiros roubados somos nós, profissionais da contravenção. Estamos o tempo todo a um passo do Instituto Médico Legal, e por ameaças muito mais letais do que a ação da polícia. 

Não estou nem aí se deixo ou apago minhas digitais no local do crime. Uso luvas (aliás, duas em cada mão, para a eventualidade de uma delas arrebentar) com a intenção de me precaver de verminoses, dermatites, eczemas, micoses, sarnas, gripes e até mesmo lepra, dependendo do naipe do assaltado que sou obrigado a encarar para ganhar o pão de cada dia.

O mesmo vale para o capuz. Tudo quanto é meliante veste para não ser reconhecido pelas vítimas ou pelas câmeras de segurança, mas para mim isso é o que menos importa. Uso para evitar vírus, especialmente do início do outono até o fim do inverno. E, mesmo no verão, só visto capuz de lã. Vai que a temperatura muda de repente, né? Nunca se sabe, esse nosso clima é cada vez mais louco e a meteorologia não acerta uma.

Quando o assalto é na rua e levo o otário até o caixa eletrônico para sacar o dinheiro da conta, me embrulha o estômago olhar para o visor do equipamento. Aquelas marcas de dedos no vidro, todo engordurado pelo manuseio de milhares de clientes... fico imaginando a orgia de microorganismos que é aquilo, uma explosiva arma química de efeito devastador. O sujeito que sem querer coloca a mão na boca após ter feito o saque leva, junto com o dinheiro, umas duzentas doenças pra casa. E se no visor é assim, quase vomito ao pensar no horror que deve ser o leitor de biometria. A camada de gordura ali justifica uma lipoaspiração ao final do expediente. Arghh!!!

Mas a pior parte vem quando o assaltado entrega a grana pra gente. Nada é mais sujo do que papel-moeda, mesmo não sendo de caixa 2 e nem tendo passado pela cueca de ninguém em Brasília. Eu diria que não há diferença entre manusear uma nota de real e dar um mergulho no Tietê. Sinceramente, não há dinheiro que pague o nojo das bactérias. Comigo o negócio é sem contato manual, por isso já obrigo a vítima a colocar o dim-dim dentro de um ziploc para afastar qualquer possibilidade de contaminação.

Se o assaltado reage e sou obrigado a mandar o dito cujo conhecer Nossa Senhora, eu não descuido: trago sempre na minha maleta de trabalho um traje completo de escafandrista, para evitar ser atingido por gotículas de sangue na hora de estourar os miolos do infeliz. Vai que eu morro infectado. Além do mais, mancha de sangue na roupa dá o que fazer pra tirar.


Nota do Editor: Marcelo Pirajá Sguassábia é redator publicitário em Campinas (SP), beatlemaníaco empedernido e adora livros e filmes que tratem sobre viagens no tempo. É colaborador do jornal O Municipio, de São João da Boa Vista, e tem coluna em diversas revistas eletrônicas.
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