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COLUNISTA
Ernesto Cardoso
09/01/2006 - 06h08
Memorial a JK?
 
 

Memorial a JK em Brasília, nada demais, pois, como qualquer outro fundador de uma cidade merece destaque nela e até monumento em sua memória. Tivesse JK, no entretanto, fundado Brasília como os demais desbravadores fizeram nascer as cidades brasileiras, algumas conquistadas à custa de sangue, outras fundadas no trabalho árduo de expansão de frentes agrícolas e pecuárias e modernamente na expansão da agricultura de alta tecnologia e, provavelmente, não mereceria esse pedestal, pois Brasília foi fundada à custa de imensos e incalculáveis recursos do erário público, da exaustão completa das caixas de previdência dos antigos institutos de previdência classistas, de recursos orçamentários e de aumento da dívida pública, num esbanjamento imensurável de recursos e esforços que faltavam e faltaram, à época e desde então, à construção de uma base sólida de desenvolvimento econômico. Fundamentalmente, falamos de uma infra-estrutura moderna de vias de comunicação terrestres e fluviais, de portos adaptados em calado e estrutura de movimentação de cargas ao comércio marítimo nacional e internacional, de ferrovias e rodovias interligando o centro oeste ao leste e conectadas aos portos de mesma latitude ao longo do litoral brasileiro, infra-estrutura essa que teria catapultado o país ao "take off point" (ponto de decolagem) levando-o ao nível de primeiro mundo nas décadas seguintes de 70 e 80. De fato, tudo indicava ter sido aquele o momento para que estas ações governamentais, muito mais necessárias, clamorosamente evidentes, muito mais importantes, de prioridade insofismável, devessem ter sido o alvo de toda a nacionalidade, objetivando dar ao lema "50 anos em 5" que o Presidente JK adotou, a consistência perene de um progresso sustentável e de ampla dimensão. Preferiu, ao invés, ao ímpeto de um estalo, enterrar tudo na construção de uma nova capital.

Os que acompanharam, à época, a literatura sobre a teoria do desenvolvimento econômico, idealizado em degraus contínuos que teriam de ser escalados para atingir o "ponto de decolagem" que definia o desatar de amarras que impediam o crescimento acelerado e sustentado, devem se lembrar que o Brasil estava a poucos passos de alcançar esse degrau. Vivemos crescimento acelerado na década de 70, mas, por alguns anos apenas - um vôo de galinha. Já ao final dessa década entrávamos no ciclo da era perdida - a década de 80 e início de 90, quando ao peso da imensa dívida externa demos o calote nos credores estrangeiros, o que nos custou a evasão de investimentos privados, a inação governamental em investimentos oficiais e o conseqüente crescimento negativo pelos anos seguintes.

Não há como negar que nosso país, em certo momento de sua história recente perdeu o trem do desenvolvimento econômico, quando isto parecia estar ao seu alcance. Os imensos recursos esbanjados na construção de uma nova capital, cujo retorno não foi apenas zero, mas, profundamente negativo (e o é até hoje), seguido dos desperdícios imensuráveis na estatização da siderurgia, energia, telefonia, indústria açucareira, cafeicultura etc. concomitantemente com o custo da criação das estatais correspondentes e institutos de controle comercial e de produção, seguidos das incalculáveis somas jogadas nos grandes planos estatais de energia nuclear, siderurgia, telefonia e comunicações, sempre com imensos desperdícios, baixíssima eficiência e enorme descontrole e uso político, tudo isto responde pelo nosso atual estágio de subdesenvolvimento econômico e social, sofrível sob vários aspectos.

Sim, caros leitores, não fossem estes incalculáveis desperdícios de recursos públicos e os erros crassos na definição de prioridades e o nosso país já teria alcançado nível de primeiro mundo; se os benefícios tivessem sido, conforme padrões das nações desenvolvidas, correspondentes aos volumosos investimentos feitos.

Citaria apenas um exemplo ilustrativo, porém, emblemático. A certo ponto da história da Companhia Vale do Rio Doce, a maior estatal brasileira de então, explorando jazidas riquíssimas em conteúdo e facilidade de exploração, altamente rentável como se tem mostrado desde sua privatização, em estudo realizado sobre sua rentabilidade histórica enquanto estatal, verificou-se que tivesse o governo investido os mesmos recursos em caderneta de poupança e teria recebido imensamente mais dividendos do que pagou a dita estatal. E, recorde-se que até recentemente essas estatais nem impostos pagavam ao governo federal, quanto menos dividendos razoáveis.

Sim, este país não era para estar na condição sócio-econômica em que está. O desperdício de recursos, a baixíssima rentabilidade dos investimentos públicos, o uso político das empresas estatais, a perda do senso real das prioridades do desenvolvimento e do mecanismo contábil "custo - benefício", fizeram-nos e fazem-nos, até hoje, celebrar, enganosamente, um dos maiores marcos de nosso atraso - Brasília e tudo o que ela tem representado em custos e ineficiência de todos os gêneros - a máquina governamental mais cara do mundo, tão cara que, recentemente, soubemos que o governo brasileiro, nas mãos dos atuais detentores do poder, gasta mais com essa máquina do que despende em investimentos.
Se a internalização de uma capital fosse a locomotiva do desenvolvimento e do progresso social e econômico de um país, os Estados Unidos deveriam estar mais pobres e atrasados do que nós.

JK foi tão popular ao final de seu governo que Jânio foi o eleito, em franca oposição a ele e ao que ele representava. Como Getúlio, John Kennedy e outros, todavia, tornou-se mais amado morto do que vivo.

Celebremo-los, pois!


Nota do Editor: Ernesto F. Cardoso Jr. é Economista (UERJ) e MBA (Univ. of Pittsburgh, EUA).
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