"Os maiores perigos para a liberdade escondem-se na insidiosa influência de homens devotados, bem-intencionados, mas, desprovidos de entendimento". Louis Brandeis, Juiz da Suprema Corte dos EUA.
Conta-se a seguinte estória, intitulada, Eu, o Lápis: Minha Árvore Genealógica Ninguém... ninguém, mesmo, sabe como chego a ser feito, diz o lápis. Em primeiro lugar, a madeira de que sou formado é fornecida por uma árvore, uma certa árvore de fibras longas, que cresce em determinados lugares, e até certo grau de desenvolvimento, para se obter o melhor rendimento. Agrônomos e agricultores definem esse ponto e ao ser atingido determinam o seu corte. Para tanto, serras feitas de aço ou, modernamente, motos-serras de fabricação complexa que vem de indústrias de máquinas e de motores, onde milhares de pessoas trabalham, são usadas no corte dessas árvores. Quando a plantação é extensa, constroem-se acampamentos de madeireiros, com alojamentos e refeitórios para o abrigo e a manutenção dessa força de trabalho. Vem, depois, o carregamento dos troncos em caminhões, ou trens e depois, até, em navios, dotados de guindastes especiais e pessoal de carga e descarga treinado. A escolha do meio de transporte implica em estudos de logística feitos por analistas para a definição da melhor viabilidade e custo. Até agora, notem bem, só falei da madeira de que é constituída a minha parte externa. Na minha fabricação, continua o lápis, entram outras milhares de pessoas com diversas especialidades e habilitações, por exemplo: na extração do minério, para fabricação do aço, do cobre e de outros minerais que são as matérias básicas das serras, dos machados, das motos-serras, dos caminhões e dos guindastes especializados. Chegadas as toras a seu destino - as serrarias, são transformadas em ripas que são transportadas até as fábricas de lápis. Agora, diz o lápis, olhem para o meu interior. É feito de um minério extraído lá no antigo Ceilão, hoje Sri Lanka. Após vários e complicados processos termina em grafite, com dureza específica e alto grau de pureza, definidos por técnicos e trabalhadores especializados. O anel metálico que situa-se em minha parte superior para encaixe da borrachinha - o casquilho, é de uma liga metálica estanhada que vem de uma siderúrgica, onde outros tantos milhares de trabalhadores qualificados atuam. A borrachinha, que se encaixa nesse casquilho, que todos acham que é feita de látex, não o é. É um produto sintético, semelhante à borracha, com idêntica capacidade de apagar riscos de lápis e que se obtém por uma reação do óleo de colza, extraído na Indonésia, com cloreto de enxofre. Depois de tudo isto, diz o lápis: deseja, ainda, alguém, por em dúvida o que eu havia dito que "nenhuma pessoa, sobre a face da Terra, sabe como chego a ser feito?". Se o prezado leitor ainda duvida, então pense no seguinte: a grande maioria das pessoas, dentre as milhares envolvidas na produção dos materiais que entram em minha fabricação e nos processos referidos, trabalhou porque queria fazer um lápis. Todas executaram seus diversos e múltiplos trabalhos como meio de obter os bens e serviços que desejavam, ou necessitavam. Toda a vez que alguém vai a uma papelaria para me adquirir, diz o lápis, essa pessoa estará trocando um pouco do valor de seu trabalho pelo ínfimo valor dos inúmeros serviços que milhares realizaram para que eu viesse a existir. Não é, pois, espantoso como é que cheguei a ser feito? Um pedaçinho roliço de madeira, com minério purificado dentro, um anel de metal estanhado e borracha sintética formando a minha cabeça, tudo empregado em quantidades definidas para que haja o menor desperdício possível e maior eficiência de produção, para definição do menor preço aceitável pelo mercado e do maior lucro desejado pelo fabricante. E, ninguém, aboletado num escritório refrigerado, membro respeitado de um super Ministério de Planejamento, deu ordens a essas milhares de pessoas, nem coordenou essas dezenas de operações, nem qualquer força policial obrigou-as a fazer o seu trabalho. Essas pessoas vivem em países diversos, falam línguas diferentes, praticam religiões que até as fazem se odiar (aliás, odeia-se mais por questões religiosas do que por qualquer outra), todavia, nenhuma delas impediu que houvesse a necessária cooperação e coordenação, o preciso entrosamento para que eu fosse produzido, nas quantidades que o mundo precisa, a preços que todos acham razoável e à disposição de todos que de mim necessitam. Esta estória, na sua singeleza, encerra uma das mais importantes observações da Economia moderna de mercado, mas, deixemos o sábio e profundo analista, que viveu há mais de duzentos anos explicar, então, como foi que tudo isto aconteceu, sem que houvesse qualquer planejamento centralizado dirigindo as milhares de pessoas envolvidas na fabricação desse lápis. Seu nome é Adam Smith, um dos pais da Economia moderna. Filósofo como era, buscava entender como é que "os interesses particulares e as paixões dos homens são levados na direção do que é mais agradável aos interesses de toda a sociedade". Concluiu, então, que, "se a troca de bens e/ou serviços entre duas partes for livre e voluntária, ela não ocorrerá a menos que ambas as partes considerem que podem tirar benefício para si próprias dessa troca" A maioria das falácias econômicas, cuja principal é a suposta, pretensiosa, capacidade do Estado de planejar, centralizadamente, a Economia, tem origem na ignorância desta percepção, aparentemente simples, de que uma "mão invisível", mas, poderosa e muito sábia, determina o que deve ser feito, onde, de que modo e em que quantidades e preços. O seu lápis, a um preço irrisório, disponível em abundância em toda a parte e no momento preciso, é exemplo eloqüente de como as forças livres do mercado são muito mais sábias e eficientes do que todo o complicado e supostamente técnico processo de planejamento macroeconômico centralizado. O sistema de preços é o mecanismo que desempenha essa tarefa, sem direção centralizada, sem exigir que pessoas se falem, ou se gostem e muito menos sem ditar-lhes suas vidas e suas ocupações. O sistema de preços, deixado a flutuar livremente, para a maioria dos bens e serviços produzidos, permite que pessoas cooperem, pacificamente, numa determinada fase da vida, enquanto cada uma delas trata de seus próprios interesses no tocante a tudo o mais. Sabe, caro leitor, que nome se dá a esta doutrina econômica? Chama-se "Liberalismo Econômico" - as sociedades mais ricas e cultas praticam-no, por inteiro, ou parcialmente; as mais pobres e incultas deitam-lhe xingação.
Nota do Editor: Ernesto F. Cardoso Jr. é Economista (UERJ) e MBA (Univ. of Pittsburgh, EUA).
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