Esta é a primeira lição a aprender no estudo de "Estatística", especialidade da matemática muito desenvolvida modernamente e de larga aplicação, graças à informática. É ciência capciosa, todavia, cheia de artimanhas, porém, instrumento poderoso, capaz de fundamentar conceitos e posições subjetivas e abalar alicerces sólidos, com a resultante que muitos se deixam enganar por números compilados ao sabor de cada tese que se deseje defender. Números, em si, são cheios de razão, mas, ocos de sensibilidade para fundamentar, muitas vezes, aquilo que pretendem demonstrar. Conscientes desta realidade, consideremos a chamada "herança maldita", invocada por Lula contra o governo de FHC. Antes, porém, façamos algumas considerações pertinentes a essa herança. A administração pública versa, como todos sabemos, sobre os negócios do Estado. Esses negócios são contínuos e dinâmicos e as realidades e contextos de hoje serão distintos dos de amanhã, sendo as razões as mais variadas. A administração pública é, pois, um moto contínuo, uma seqüência de atos e fatos oriundos de longe. Comparar governos, com isenção de ânimo, exige muito mais do que a enunciação de números e dados estatísticos desligados de seu contexto original, ou, pior ainda, introduzidos em contextos atuais inadequados à realidade passada. Em todas as organizações, as novas administrações sempre assumem um conjunto de passivos e ativos deixados pelas anteriores. Não é incomum, no setor privado, uma nova administração analisar previamente, com muito critério técnico, esse conjunto de condições pertinentes ao negócio que assume, para aceitá-las ou rejeitá-las, pois não prevalece no âmbito privado a escapatória da "herança maldita". Na esfera pública, contrariamente, novos administradores assumem, muitas vezes, com extrema coragem, até com grande dose de irresponsabilidade, a herança que recebem, sem, sequer, proceder a uma análise prévia que mostraria a inviabilidade, ou a impossibilidade de alteração significativa dessa herança. Pior, ainda, jejunos, inexperientes e não raro sem formação apropriada, julgam-se imbuídos de uma força sobrenatural a que chamam de "vontade política", que tudo resolveria. Ao advir o insucesso, culpam tudo e todos e vem aí bem a calhar epítetos como esse da "herança maldita", repetida a esta altura, por quase quatro anos, sem ter sido alterada significativamente, até agora, por qualquer "vontade política". No caso específico da "herança maldita" recebida pelo governo Lula, deveríamos preliminarmente indagar, numa visão retrospectiva de nossa história político-administrativa, em que tal herança foi tão diversa da recebida pelos governos anteriores, já que não nos consta, jamais, haver ocorrido algum novo governo, ter recebido uma "herança bendita", reconhecida como tal, elogiada, apreciada e atribuída ao anterior. Seja como for, a "maldição" da era FHC fundamentava-se em alguns números e dados estatísticos, passíveis de explicações a contento de cada lado, que consignavam, ao término daquele governo, o chamado "estado da União". Os principais dados diziam respeito à taxa de câmbio, nervosamente alterada, subvalorizando em demasia a moeda nacional que beirou os R$ 4,00 por dólar e que era de R$ 3,53 em 31/12/2002; a taxa básica de juros SELIC, que atingiu mais de 25%; o montante da dívida pública, que acumulava cerca de R$ 623 bilhões ao final de dezembro de 2002 e o déficit consolidado da Previdência Social que totalizava R$ 71 bilhões, ou 5,5% do PIB. Analisemos cada um destes números: o câmbio que se tornara flutuante, no último quadriênio do governo FHC, flutuava, de fato, ao sabor da alta demanda de recursos que fugiam do país com as ameaças que a candidatura Lula brandia aos quatro ventos, tais como, "um outro mundo é possível...", é mudar tudo isso que está aí...", "fora com o FMI", "a dívida pública não deve ser paga, mas, investigada e os culpados postos na cadeia...", todas de forte cunho ideológico e demagógico, como mais tarde se constatou. Hoje, ao escrever estas linhas, a taxa de câmbio baixou a pisos jamais atingidos desde a desvalorização do Real em 1996, situando-se em R$ 2,10 por dólar. Curiosamente, no entanto, foi no estímulo das altas taxas cambiais que os nossos setores exportadores começaram a ganhar fôlego e o Brasil passou a obter ganhos cada vez maiores em suas transações comerciais com o exterior, exportando muito mais do que importava, obtendo saldos comerciais jamais atingidos, fruto maior de uma excepcional situação de alta demanda dos mercados internacionais, uma glória para o governo Lula. Hoje, no entanto, com uma das mais baixas cotações do dólar, nosso turismo está fluindo para o exterior, fábricas estão fechando, estamos importando produtos e peças que antes fabricávamos, o desemprego está em marcha, nossos produtos agrícolas não conseguem ser lucrativos, as importações começam a aumentar mais que as exportações e os saldos tão festejados já começam a diminuir. - QUE HERANÇA RECEBERÁ O PRÓXIMO GOVERNO? As altas taxas de juros, amaldiçoadas pelos economistas e políticos do PT, que não encontravam razão para tal, foram mantidas continuamente altas ao longo de todo este governo, com elogios para Palocci e para Meireles, explicando sua necessidade com o fim de controlar a mesma coisa que se buscava controlar no final do período FHC, a inflação que tentava sair de controle e atrair capitais que financiam nossa dívida pública e garantem sua contínua rolagem. Essa taxa era de 25,5% em janeiro de 2003, início do governo Lula, desceu e subiu e atualmente situa-se em 16,5 por cento. Tudo indica que o atual governo ainda passará ao próximo uma das mais altas taxas de juros praticadas no mundo. - QUE HERANÇA RECEBERÁ O PRÓXIMO GOVERNO? O montante da dívida pública, caso de polícia como diziam os novos governantes, pois, não encontravam explicação para seu montante, foi deixada por FHC, em dezembro de 2002, em R$ 623 bilhões. Pois bem, em fevereiro de 2006 já atingia R$ 1 trilhão e dez bilhões, um crescimento de mais de 62 por cento, mais de 54% do PIB e com tendência de contínuo crescimento. - QUE HERANÇA RECEBERÁ O PRÓXIMO GOVERNO? O déficit consolidado da Previdência ("previdenciário" e regime do funcionalismo público nos três níveis), um dos componentes de maior peso na dívida pública, objeto de discursos políticos há mais de 50 anos, era de R$ 71 bilhões ao final de 2002, ou 5,5% do PIB. Reformas anêmicas nos governos FHC e Lula, ao custo de intensa discussão e discórdia, em nada afetaram seu crescimento vertiginoso. Atualmente esse déficit já monta a 7,5% do PIB, com tendência a crescimento acelerado, ameaçando a viabilidade do próprio sistema. - QUE HERANÇA RECEBERÁ O PRÓXIMO GOVERNO? Se Lula for reeleito, pela primeira vez será "bendita", por certo, até pelo silêncio a respeito, ou pelo desvio da atenção popular para outros "feitos". Se for um opositor, "maldita" de certo. E daí, caro leitor, o que você acha?
Nota do Editor: Ernesto F. Cardoso Jr. é Economista (UERJ) e MBA (Univ. of Pittsburgh, EUA).
|