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Crônicas
22/02/2021 - 06h38
Autobiografia levemente autorizada
Henrique Fendrich
 

1987. Flamengo e Sport disputam para ver quem será o campeão no ano do meu nascimento. Morre Drummond. Nasce um cronista.

1988. Minha cabeça, enorme ao nascer, demonstra sinais de recuo. Aprovado o texto da nova Constituição. Nada falo e nada opino.

1989. Cai o Muro de Berlim. Dentro de mim, derrubam uma hérnia.

1990. Collor assume a Presidência da República. Não me oponho.

1991. Fujo com a vizinha para o lago perto de casa. Os adultos se desesperam. Somos resgatados sem entender o motivo do pânico.

1992. Suspeito que existo. Entro para o Jardim de Infância. Acumulo os meus primeiros traumas nas aulas de carpintaria. Gosto de uma menina.

1993. Aprendo a ler. Decido que o meu ideal de vida consiste em descer o tobogã do parquinho. Danço quadrilha pela primeira e última vez.

1994. Conquisto a minha primeira Copa do Mundo. Brinco de carrinho enquanto Senna morre. Vejo um eclipse com uma radiografia velha.

1995. Como maionese estragada. Arranco as amígdalas. Peço para Deus assinar um bilhete, mas ele se nega. Espero o Natal desde setembro.

1996. Já sou existencialista. Leio "E se todo mundo tivesse rabo?". Digo que os Mamonas não são mais os mesmos na véspera da morte deles.

1997. Pego catapora. Consigo o Tazo número 80. Passo a fase "Tubular" no Super Mario World. Perco a primeira partida de futebol de botão.

1998. Descubro que sou o novo Cláudio Kano e invisto no ping-pong. Descubro que sou o novo Denílson, mas perco a Copa do Mundo.

1999. Acesso a internet pela primeira vez, mas prefiro o Paint. Olho para o relógio às 9 horas, 9 minutos e 9 segundos do dia 9/9/99.

2000. Vejo o mar pela primeira vez, caio nas pedras e me apaixono no mesmo dia. Faço poesias. Empenho-me em reescrever Renato Russo.

2001. Os aviões atingem o World Trade Center enquanto aterrorizo o meu professor de violão. Descubro que sou o novo Kurt Cobain.

2002. Deixo de dormir para ver a Copa. Ouço Engenheiros do Hawaii e desenho engrenagens. Mantenho dura oposição ao governo Bush.

2003. Leio Dom Quixote. Sou atropelado de bicicleta. Descubro que sou o novo Manoel Tobias durante uma partida de futsal no meu aniversário.

2004. Leio Rubem Braga. Leio um artigo sobre árvores genealógicas. As duas coisas orientam a minha vida. Passo a preferir a vida virtual.

2005. Admito que meu temperamento é curitibano e me mudo para lá. Iludo-me fazendo Jornalismo. Reescrevo crônicas de gente famosa.

2006. Descubro que sou o novo Mr. Pi e viro locutor de uma rádio-web. Vejo o Paraná Clube ser campeão estadual e ir para a Libertadores.

2007. Arrumo um emprego perguntando às pessoas se elas têm medo da violência. Não ganho nada. Quando passo a ganhar, acho injusto.

2008. Deixo de ser relativista. Tenho aulas de religião com um professor ateu. Fotografo gente morta. Ganho um diploma desnecessário.

2009. Sou assaltado pela primeira vez sem ser o Governo. Moacyr Scliar me chama de culto e simpático. Desisto de me apaixonar. Apaixono-me.

2010. Vou para o exílio em Brasília. Ando de avião. Circulo entre deputados e senadores. Mantenho-me íntegro. Viro neopentecostal.

2011. Acompanho um debate com indígenas armados que têm a minha empresa como inimiga. Reescrevo as crônicas do Nelson Rodrigues.

2012. Subo a rampa do Planalto, mas me canso na metade. Leio livros na própria livraria. Passo por todas as especialidades médicas.

2013. Acompanho os protestos de junho na frente do Congresso. Ajudo a fechar uma rua. Publico um livro. Não planto árvore e nem tenho filho.

2014. Recuso-me a dizer a uma mulher o placar de Brasil e Alemanha. Escrevo uma crônica por dia, na esperança de que algo se salve.

2015. Deixo de dormir. Assisto somente filmes tristes. Pela primeira vez, olham para mim e acham que já estou em condições de me reproduzir.

2016. Descubro que existe um Universo. Começo a olhar estrelas e a ouvir passarinhos. Forças ocultas me levam de volta à Curitiba.

2017. Ganho dinheiro com gente morta. Viajo em busca de gente morta. Rompo com o Estado, mas nem por isso deixo pagar a Previdência.

2018. Consigo um emprego assim que a vocalista do Cranberries morre. Só leio contos. Passo o Natal pedalando. Não voto no Bolsonaro.

2019. Descubro que durante esse tempo todo eu era tcheco. Mantenho o objetivo de aprender todas as línguas do mundo, menos o esperanto.

2020. Sobrevivo. Não pego ou desconheço ter pegado o coronavírus. Trabalho de casa e por isso não tenho mais tempo para ler nos ônibus.

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