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Crônicas
22/01/2021 - 06h04
Poço Redondo do cangaço
Rangel Alves da Costa
 

Desde o ano de 1929, quando Lampião e pequeno grupo de cangaceiros despontaram nas estradas empoeiradas do arruado, a pedra fundamental do cangaço foi fincada para a eternidade na história dos sertões sergipanos.

Daí em diante, Poço Redondo passou a escrever sua própria saga na história do banditismo nordestino, principalmente pela grande quantidade de filhos da terra que se bandearam para as hostes cangaceiras e pelos inúmeros coiteiros que passaram a arregimentar - com zelo e até devoção - as investidas do bando na região.

E daí em diante também a escrita induvidosa situando Poço Redondo no patamar da história do cangaço. Ora, somente a quantidade de filhos da terra que partiram nos passos de Lampião já é algo espantoso. Nada menos que trinta e quatro, segundo estudos publicados por Alcino Alves Costa.

Os seguintes homens: Sabiá (João Preto), Canário (Bernardino Rocha), Diferente (Nascimento), Zabelê (Manoel Marques da Silva), Delicado (João Mulatinho. irmão de Adília de Canário), Demudado (Zé Neco), Coidado (Augusto), Cajazeira (José Francisco do Nascimento - Zé de Julião), Novo Tempo, Mergulhão e Marinheiro (Du, Gumercindo e Antônio, irmãos de Sila); Elétrico, filho de Pedro Miguel; Lavandeira, Penedinho, Bom de Vera (Luís Caibreiro), Beija Flor (Alfredo Quirino), os irmãos Moeda e Alecrim (João e Zé Rosa), os irmãos Sabonete e Borboleta (Manoel e João Rosa), os irmãos Quina-Quina e Ponto Fino (Jonas e José da Guia), Zumbi (Angelino), Cravo Roxo (Serapião), Cajarana (Francisco Inácio dos Santos), Azulão (Luís Maurício da Silva), e Santa Cruz.

As mulheres: Sila (Ilda Ribeiro de Souza, companheira de Zé Sereno) Adília, companheira de Canário), Enedina (esposa de Cajazeira, a única do bando que era realmente casada), Dinda (companheira de Delicado) Rosinha (companheira de Mariano), Áurea (companheira de Mané Moreno, o da Bahia) e Adelaide (companheira de Criança e irmã de Rosinha e prima de Áurea).

Outros nomes, contudo, ainda serão confirmados, elevando tal número de filhos da terra que deixaram seus lares matutos para a difícil e perigosa vida nos carrascais nordestinos. Num tempo em que se dizia que em Poço Redondo quem não fosse cangaceiro era coiteiro (assertiva aproximada a uma grande verdade), tal exemplificação estava no grande número de sertanejos que acobertava e ajudava na sobrevivência do bando na região, ora levando mantimentos ora guardando segredos, levando missivas e recados, além de outras serventias, num tipo singular de cangaço.

Foi Poço Redondo a localidade que mais colocou à disposição do cangaço filhos na função de coiteiros. Grandes servidores dos coitos foram Mané Félix, Adauto Félix, Lourival Félix, Erasmo Félix (todos parentes e da região beiradeira de Cajueiro), Messias Caduda e muitos outros. Em Poço Redondo não havia coronéis nem portentosos latifundiários que tivessem pactuado com Lampião o fornecimento de armas, dinheiro ou interesses políticos e estratégicos.

A força do coiterismo na região estava na escolha feita (ou forçadamente feita): servir ao mal ou ao menos mal. Temiam as investidas do cangaço, mas temiam muito mais a chegada das volantes com suas extorsões, arrogâncias e brutalidades. Na concepção das forças volantes, todo sertanejo era pactuado com o cangaço e por isso merecia sofrer, ainda que muitos de seus comandantes fossem amigos e até protetores de Lampião.

Também em Poço Redondo marcos históricos surpreendentes na história cangaceira, locais de combates, de mortes, de tocaias e emboscadas, e também do fim do cangaço em 38, na Gruta do Angico. Em 32, na Fazenda Maranduba, ocorreu o segundo maior combate entre cangaceiros e volantes. A estratégia de Lampião venceu os egoísmos e discordâncias de dois comandantes: o pernambucano Mané Neto e o baiano Liberato de Carvalho. Dizem até que Liberato de Carvalho, irmão do coronel João Maria de Carvalho da Serra Negra, ajudou o cangaceiro maior em sua empreitada. Coisas que dizem. Foi também em Poço Redondo que o cangaço se findou a 28 de julho de 38, com a chacina de Angico. Cinco cangaceiros de Poço Redondo morreram naquela fatídica manhã: Enedina, os irmãos Moeda e Alecrim, Mergulhão e Elétrico.

Ao longo dos 14 km da Estrada Histórica Antônio Conselheiro (Estrada de Curralinho), há os marcos históricos da Cruz dos Soldados (local de morte dos soldados Zé Vicente e Sisi, vingança perpetrada por Corisco e Mané Moreno e seus comandados, numa desforra pela morte do cangaceiro Pau Ferro nas Quiribas, também em Poço Redondo), o marco da morte de Canário (morto à traição pelo também cangaceiro Penedinho, próximo aos beirais da estrada, na fazenda Cururipe), o marco de Antônio Canela (um sertanejo que foi morto pelo subgrupo de Mané Moreno, após ter falado o que não devia sobre Lampião - “Se Lampião aparecer aqui eu arranco a cabeça”. Acabaram arrancando a dele).

Ao lado da mesma estrada, o marco onde foi encontrado o corpo do ex-cangaceiro Cajazeira, Zé de Julião). De triste recordação foi a investida do cangaceiro Gato na região da fazenda São Clemente, deixando o terrível rastro de sangue e sete vidas sertanejas inocentemente ceifadas. Mas em Poço Redondo há muito mais da história cangaceira, a exemplo do Coito da Pia das Panelas, local de morte das cangaceiras Lídia e Rosinha (no riacho do Quatarvo, logo ao lado do coito).

E mais, muito mais da história cangaceira está fincado em Poço Redondo. Salientando-se, por fim, que foi em Poço Redondo onde nasceu e viveu um dos maiores pesquisadores e escritores da história do cangaço: Alcino Alves Costa.


Nota do Editor: Rangel Alves da Costa é poeta e cronista. Mantém o blog Ser tão / Sertão (blograngel-sertao.blogspot.com.br).

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