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Crônicas
19/10/2020 - 06h59
Churrasco e bom chimarrão
Dartagnan da Silva Zanela
 

Juvêncio, outro grande amigo do seu Tibúrcio, resolveu encilhar a sua mulinha, Nhanha, para dar umas volteadas à moda antiga, bem do jeitão que ele gosta. Troteando foi para a Santa Missa e, troteando, foi depois até a casa do seu Cotovia para almoçar, conforme haviam combinado na quinta-feira, quando jogou com ele uma partida de sinuca, na bodega do Tiba, onde apostaram um churrasco. Aquele que perdesse teria que sapecar um osso para os amigos. Pois é. Perdeu.

E pense numa propriedade bonita. Seu Cotovia é um homem pra lá de caprichoso. Um arvoredo de dar inveja. Tem fruta de tudo que é tipo e tudo muito bem cuidado. Laranja de umbigo, sanguínea, parreira de uva, pessegueiros, mexericas, fruta do conde, nectarinas, amorinha, romã, caqui, abacate, jabuticaba, limão galego, limão rosa, jaca, butiá, maçã, graviola, meu amigo, a passarinhada ali nem voa mais. De tanto que comem os bichinhos meio que saem rolando pelo terreiro do rancho.

Seu Juvêncio apeou de sua mula perto dum pé de cinamomo que fica entre o chiqueiro e o galinheiro. Deixou a bichinha na sombra e foi-se para o lado da fumaça.

“Dia seu Cotovia! Vamos ver se o senhor sabe fazer uma costela, porque de sinuca você não entende nada”. “Dia Juvêncio. Cadê a esposa?” “Foi na casa da irmã dela e daqui a pouco chega. E sua senhora”? “Tá lá pra dentro”. “Que maravilha! Tá com seus netos hoje”? “Hoje não”. “Que pena”. Seu Juvêncio adora crianças. “Acabei trazendo esses doces imaginando que a gurizada estaria aqui. Entregue pra eles quando aparecerem”. “Pode deixar ali em cima da mesa. Obrigado”.

Enquanto seu Cotovia virava a costela e a paleta de porco, perguntou: “Me diga uma coisa, como é que anda as políticas”? “Ah! Daquele jeitão de sempre. Uma vez ou outra aparece um candidato lá na minha casa pra tentar me fazer de bobo; mas, você sabe como é que são as coisas: o cão é esperto não porque é o cão, mas sim, porque é velho”. “Fiquei sabendo da última. Que trolada você deu naquele piá”. “Trolada”? “É um dizer que meus netos usam. Fiquei sabendo que você passou o senhor de um migué num candidato a vereador. É verdade”? Juvêncio riu. “É. É sim. Mas acho que agora ninguém vai mais lá em casa. Estou ficando manjado”.

Cotovia alcança para seu amigo aquela caipira, do tipo, feita no capricho com os limões de seu pomar, água ardente batizada com funcho, num daqueles canecos do baile do chope de 1975. Bons tempos aqueles quando os canecos dos bailes eram grandes, de cerâmica e cheios de presença. Juvêncio deu aquele talagaço pra molhar a palavra e soltar o verbo.

“Me diga Cotovia”. “Digo”. “Você nunca pensou em sair candidato à alguma coisa? Se você saísse eu não apenas votaria em você como faria campanha. E faria de graça”. O anfitrião riu. “Não fale asneira homem. Você seria o primeiro a não votar em mim. Quem muito garganteia que vai apoiar alguém dificilmente apoia de verdade. E nós dois sabemos o quanto você é garganta”.

Juvêncio ri de se babar junto com seu amigo e, após passar o canecão de caipira pra ele, perguntou: “Mas, falando sério: nunca pensou mesmo”? Cotovia olhou bem para seu amigo e, é claro, não perdeu o embalo: “Sim. Pra falar a verdade, ando pensando seriamente no assunto.” “Sério”? “E eu lá sou homem de me bobear com coisa séria”? Cotovia deu um golaço na caipira e retomou o fio da meada: “Sairei na próxima eleição e, inclusive, já estou pensando na forma como eu irei fazer minha campanha eleitoral”. E então ele passou o caneco para Juvêncio.

Curioso feito piá em véspera de Páscoa, Juvêncio deu uma baita beiçada na caipira e disse: “Me conte então como será sua campanha?” “Não”. “Pare homem, largue mão, me conte”. “Tudo bem”. “Então desembucha”. “Farei uma campanha inovadora. Nada desses santinhos tradicionais onde o diabedo coloca uma fotinho e meia dúzia de palavrório furado. Nada disso. Serei original”.

Os olhos de Juvêncio brilhavam feito bolica novinha, não só por curiosidade ou por causa da pinga. Era emoção pura. “Eu sou um homem que quer que as coisas tenham utilidade. Nada de desperdício. Não apenas isso. Eu gosto que tudo tenha um significado. Curto, grosso e direto”. “Entendo”. “Por isso, ao invés de fazer santinhos e coisas do gênero, eu irei fazer a minha propaganda com materiais que comuniquem de forma clara minhas intenções enquanto homem público”.

Cotovia fica um pouco silente, dá mais um tombo na costela e na paleta e retoma sua palestra. “Irei utilizar papel higiênico com o meu nome e número da candidatura impressos nele”. “Como é que é”? “Não apenas isso. Papel higiênico e camisinhas”.

Juvêncio franziu a testa, coçou rapidamente a moringa e disse: “Não estou entendendo”. “Te explicarei bem rapidinho. É simples: quando o caboclo for cagar na patente e pegar o papel higiênico e ver o meu nome, e meu número, irá olhar e dizer: ‘Bah! Esse aí é o cara que vai acabar com todos esses rolos da prefeitura e limpar essa merda toda que os caiporas fizeram’.” Juvêncio permaneceu calado. “Quanto a camisinha, essa teria uma simbologia similar. Quando os eleitores forem fazer tchaca tchaca na butchaca e pegassem a dita cuja pra usar, dirão: ‘está aí o cara que irá phoder com tudo. Taca-lê pau Cotovia velho. Taca-lê pau”.

“Você está falando sério”? “Viu. Não te falei. Você seria o primeiro garganta a não me apoiar em minhas pretensões políticas. Por isso não saio candidato a cargo nenhum”.

Em meio a esse fervo, se aproximou a esposa do seu Cotovia. “Dia seu Juvêncio”. “Dia dona Clotilde”. “E qual era o motivo desse escândalo todo”? Os dois amigos se olham e calados ficaram, mas não por muito tempo.

“Dona Clotilde, a senhora sabia que seu digníssimo marido pretende sair candidato a prefeito nas próximas eleições”? Com uma cara de dissimulada ela olha bem para o amigo e diz: “Não diga. Então vou ser primeira dama e nem sabia. Fale-me mais sobre isso”. “Pergunte pro seu marido que ele te explica como será a sua campanha”.

E assim seguiu o domingo, entre o braseiro e a caipirinha, com muita conversa fiada.


Nota do Editor: Dartagnan da Silva Zanela é professor e ensaísta. Autor dos livros: Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos - ensaios sociológicos; mantém o site Falsum committit, qui verum tacet.
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