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SEÇÃO
Crônicas
13/10/2020 - 05h58
Erro e acerto
José Eustáquio Ribeiro
 

O paleontólogo, historiador e crítico da ciência norte-americano Stephen Jay Gould, diz lá em algum lugar de seu "Dinossauro no palheiro", que nas academias científicas dos Estados Unidos a maior parte dos resultados de pesquisas depositados não passam de relatos de fracassos. De tentativas que não deram certo.

Aprendemos com a ciência avançada que conhecer tem muito de tentativa e erro. Vez em quando, um acerto. Ora, esses erros foram importantes para o desenvolvimento das ciências. Pois ensinaram os caminhos que não deveriam ser outra vez tentados. As opções que levam a lugar nenhum. Quais estradas não têm saída. O seu conhecimento evita novas tentativas naquele sentido que objetiva o acerto.

Tenho algumas teorias sobre a origem daquela penca de ciências no final do século XVIII e no século XIX. Lá vai...

No final dos setecentos o médico alemão Franz Anton Mesmer desenvolveu uma ciência estranha que passou a ser denominada mesmerismo, que tentava entender todos os âmbitos da fisiologia animal, unindo imanentismo e transcendentalismo. Desenvolveu a teoria do magnetismo animal, baseado no princípio de que no corpo animal há abundância de minerais, como o ferro, e pensou que forças magnéticas eram responsáveis pela dinâmica e boa fisiologia do corpo. Praticamente unindo corpo e espírito (anima e psiqué). O troço é uma bobagem. Virou puro misticismo. Para mim foi só uma tentativa de fazer uma ciência positiva da alma, que decididamente não tem nenhum fundamento. Seu erro não é para desanimar, ou seguir, é para se aprender. Ele tentou resolver um problema inventando uma ciência. Mas errou. Os "cientistas do oculto" e os fabricantes de colchões magnéticos deveriam aprender com ele, não acreditar nem ganhar dinheiro com sua tentativa malograda. Não deveriam nem acreditar nem mentir baseados na sua tentativa que não teve sucesso.

No século XIX, isso é uma teoria minha, o francês com o pseudônimo Allan Kardec criou aquilo que hoje chamamos de "espiritismo kardecista". Faz tempo, por motivos que não lembro, talvez só curiosidade, li o seu "Livro dos Espíritos". Aquilo não me pareceu religião, sim tentativa de ciência. Em alguns pontos lembra os estudos de Economia Política. Seus seguidores alegam que o que ele propõe não é teologia, sim doutrina. Doutrina é um termo vago, pode ser aplicado a quase tudo. A mim me sugere uma teoria elevada ao estatuto de verdade religiosa. De qualquer modo, me pareceu que o que ele tentou foi desenvolver um tipo de psicologia, uma ciência objetiva da alma, sem desprezar a religião. Para mim foi uma tentativa que resultou em fracasso. Justamente porque dá estatuto objetivo a verdades que ele mesmo propõe como transcendentais. A partir de migalhas mágicas que inventam de invadir o mundo natural. Mas muita gente acredita nele, mas não como cientista. A ciência da alma só ganhará algum sucesso a partir do final do século XIX, com o desenvolvimento da psicologia experimental, que acredita na identidade entre sintoma e motivo, e da psicanálise freudiana, que vê o sintoma como mera pista que por caminhos hermenêuticos pode nos levar à interpretação da psiquê. Essas duas ciências, pode se dizer, tem sua dose de acerto como tentativa. Intuo, ou como diria Pierce, abduzo que saber de Mesmer e Kardec foi importante para o desenvolvimento dessas ciências.

Agora vou para o mais geral da vida, bancando uma de moralista do otimismo. Eu sou um admirador das pessoas fracassadas, dos loser, dos perdedores, daqueles que a maioria trata como lixo. Deveríamos premiá-los, dar-lhes nobéis de qualquer coisa (talvez criar um Nobel da Tentativa), criar para eles currículos lattes na Plataforma da Capes. A maior parte das pessoas são assim. Indivíduos que são jogados no mundo, para nele tentar a feitura de alguma coisa. Acho que aqueles que tentaram e não conseguiram devem ser bem renumerados e não jogados nas sarjetas como mendigos. Toda experiência é importante e nos ensina muito, independente de seus resultados. Nos ensinam as estradas que não devem ser tentadas. Nos dizem onde está o fim da picada. Os bem sucedidos vangloriam vitória sobre uma montanha de ossos daqueles que são chamados de fracassados. Seus méritos não são maiores do que o daqueles que os precederam em tentativa e não conseguiram êxito. Darwin deveu muito de seu acerto aos fracassos malucos de seu avô médico, Erasmus Darwin. Não sei se terei sucesso em uma coisa sequer, mas aprendi muito com os livros e eventos que não deram certo. Vou tentar, mas sem nenhuma certeza de erro ou acerto. Ninguém tenta querendo errar. Viver é uma tentativa. O resultado exitoso é detalhe que vai para debaixo da terra. Nenhuma tentativa merece o lixo.

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