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Crônicas
19/05/2020 - 07h27
O coronavírus me matou
Henrique Fendrich
 

E então eu morri, vítima do coronavírus. Em um momento, tudo ainda era desespero, opressão e falta de ar. De repente (puf!), senti como se tivessem tirado um grande peso de cima de mim. Mas eu não entendia ainda o que estava acontecendo. Sem saber como, eu estava à altura do teto e olhava para baixo vendo médicos e enfermeiros se agitarem sobre um corpo qualquer. Mas... aquele era o meu corpo! Isso me espantou um pouco, mas não abalou a sensação de paz e serenidade que eu sentia até então. Eu até tentei acalmar os médicos, falar para eles “vejam, eu estou bem, parem de se agitar”, mas ninguém podia me ver ou ouvir. O interessante é que, por alguma razão misteriosa, eu também podia saber o que eles estavam pensando. Alguns deles demonstravam uma preocupação com a sua própria saúde, pois também poderiam estar contaminados. Uma enfermeira em especial pensava na mãe e em seu namorado. Olhei outra vez para aquilo que era o meu corpo e - coisa engraçada - não senti nenhum apego por ele. Que fizessem o que bem entendessem com o meu corpo, para mim estava bem. Comecei então a subir e pude ver outros quartos do hospital, inclusive uma sala onde estavam minha esposa e meu filho. Senti-me triste por um momento, ao me dar conta de que iria deixá-los, mas tive certeza de que tudo iria ficar bem.

Comecei então a subir mais, a ponto de sair do hospital e visualizar a rua e as vizinhanças. O que mais me chamou a atenção foram as árvores de um parque nas redondezas, porque eu as via com uma cor muito diversa do que entendemos como verde, era algo muito mais vivo e mais intenso do que eu já vira. E, de fato, eu realmente as sentia como se fossem organismos vivos, plenamente capazes de amar e de serem amados como qualquer um de nós. Nesse momento, eu já estava em êxtase. Sentia como se fosse parte de tudo aquilo que via ao redor, como se tudo fosse uma coisa só e indivisível. Só que eu continuava a subir, e cada vez mais rápido, de modo que não pude prestar tanta atenção no que eu via.

Senti que subia tanto a ponto de enxergar a divisão da Terra em oceanos e continentes. Só nesse momento é que me ocorreu olhar para o outro lado e ver para onde eu estava indo. O interessante é que eu sequer precisei “me virar” para ver, pois bastava pensar em olhar que eu - seja lá o que fosse “eu” - já estava olhando naquela direção. E o que eu via era muito parecido com aqueles imagens feitas pelo Hubble no espaço. Era para lá que eu seguia, e cada vez mais rápido, até que senti como se eu estivesse sendo tragado por um túnel. Tive a sensação de que havia coisas nas paredes desse túnel, mas não podia discernir nada àquela velocidade. Percebi que seguia na direção de um ponto luminoso muito distante. Concentrei-me naquela luz, que ia ficando maior. Era uma luz entre o branco e o amarelo, mais forte do que imagino que seja o sol, mas o gozado é que não feria os meus “olhos” de nenhuma maneira. Ela foi aumentando de tamanho até me engolir de todo.

Então saí “do outro lado” da luz, e ali senti uma sensação de amor tão avassaladora que por um momento tive a impressão de que iria me rasgar. Formas de luz começaram a se aproximar e eu achei que eram pessoas que eu conhecia. Pude ver o que pareciam ser os meus avós. Eles olhavam para mim e sorriam. Aquilo parecia tão incrível e maravilhoso que eu, um homem geralmente cético e racional, me flagrei pensando se não era apenas um produto da minha imaginação - essa dúvida ainda permanece.

Imaginação ou não, eu queria correr até os meus avós, mas então apareceu diante de mim como que uma grande “tela” em que eu podia rever toda a minha vida em questões de segundos, desde o meu nascimento. Apesar da velocidade, eu experimentava outra vez as sensações de cada cena, e isso incluía até as sensações que fiz os outros terem. Houve muitos momentos em que me senti vexado pelo que fiz, mas de maneira nenhuma eu me sentia “julgado” ou algo assim. Revi até os momentos que antecederam a minha morte e então uma forma de luz ainda maior e mais intensa veio até mim, “olhou” para mim com grande ternura e, sem aparentar ter qualquer “boca”, falou que não era a minha vez e eu deveria voltar.

Ah, eu não queria sair dali. Mesmo que fosse tudo criação da minha cabeça, eu ficaria ali para sempre. Reclamei, esperneei, fiz mesmo uma cena como se fosse uma criança, mas nada adiantou, já que subitamente me senti tragado outra vez no túnel, só que em sentido reverso e numa velocidade ainda mais rápida. Em instantes eu me sentia outra vez no meu corpo, com todo o seu peso e opressão.

Dizem os médicos que eles me “perderam” por três minutos. O que eu experimentei, contudo, parecia-me coisa de dias ou meses. Ainda questiono a realidade dessa experiência, que bem pode ser uma última cartada de um cérebro moribundo a fim de compensar o stress do corpo à beira da morte. Pode ser que seja só isso e que não haja vida alguma no “além”. Mas, mesmo isso, me leva à conclusão de que a morte é uma delícia. Fujamos do corona, combatamos o vírus, mas que o façamos com menos peso. Quem morrer verá.

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