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Crônicas
17/01/2020 - 08h07
Nossos preconceitos
Rangel Alves da Costa
 

É no próprio contexto da definição de preconceito onde se encontram as provas de sua disseminação por todo lugar, perante as pessoas e meios. Tem-se, assim, que o preconceito expõe-se e expande-se abertamente, através de palavras, gestos e atitudes, mas principalmente através de sutilezas e múltiplos disfarces.

Por definição, preconceito é qualquer opinião ou sentimento concebido sem exame crítico. É o sentimento hostil, assumido em consequência da generalização apressada de uma experiência pessoal ou imposta pelo meio. É um juízo pré-concebido, que se manifesta numa atitude discriminatória perante pessoas, crenças, sentimentos e tendências de comportamento. É ainda uma ideia formada antecipadamente e que não tem fundamento crítico ou lógico.

Muitos outros conceitos, definições e significados, poderiam ser dados com relação a preconceito. Mas em todos, invariavelmente, sempre a noção de repulsa, de não aceitação, de negação do outro. Então, o que sempre se tem é uma crítica pessoal acerca do outro, seja na sua roupa, na sua opção sexual, na sua cor, na sua religião, no seu jeito de ser e conviver. Basta que alguém confronte uma idealização ou uma concepção, então já se terá o preconceito.

Diz-se muito do preconceito de raça e de credo. O evangélico tem aversão ao católico, o católico sente repulsa ao umbandista, o ateu execra todas as religiões, apenas para servir de exemplo. O negro é evitado pelo branco, o branco é negado pelo negro. Alongando a exemplificação, não raro que rico não goste de pobre, moradores de áreas nobres não gostem de favelados, vaidosos e egoístas não gostem da humildade e da simplicidade. E mais um rol infinito de situações onde o preconceito é percebido, ainda que não totalmente visível.

Contudo, o que dizer do preconceito no olhar, na palavra dissimulada, no forçado convívio social? O que dizer da ação supostamente despretensiosa, mas que carrega em si forte dose de desfazimento do outro? O que dizer das relações que se dão entre forças superiores e inferiores, onde os níveis ou classes sociais pontuam as formas de tratamento? O que dizer das amizades baseadas na pretensão de um sobre outro, onde o menos favorecido economicamente é visto como servil?

Ademais, não adianta dizer que respeita o outro que seja desta ou daquela religião, que possua esta ou aquela cor, que tenha esta ou aquela origem. Nada disso tem valia se no íntimo da pessoa existe uma concepção bem diferenciada de tudo isso. Ora, existem pessoas que não dizem - ou juram de morte que não são assim -, mas que não suportam sequer ter uma mão de um “dito” inferior estendida em sua direção. Relatos existem de políticos que simplesmente levam álcool nos seus veículos para a limpeza das mãos após o contato com seus eleitores empobrecidos.

As pessoas não dizem, sempre se negam a dizer ou demonstrar, mas no fundo da alma há muito mais preconceito do que imagina qualquer vã filosofia. O que se vê é um monte de demagogos, de interesseiros e ambiciosos, que forjam sentimentos para tirar proveito de pessoas e situações. Ama o eleitor, adora o eleitor, sente saudade do eleitor, procura o eleitor, mas somente nas proximidades das eleições. Passado o pleito e por muito tempo, o adeus, o esquecimento. Por que assim acontece? Ora, a política não gosta de povo além daquilo que este, enquanto votante, possa servir a seus propósitos de poder e mando.

Outro exemplo claro do preconceito disfarçado, e desta vez de humanitarismo, está presente nos hospitais, nos postos de atendimentos, nos prontos-socorros. Relatos existem de tratamentos desumanos e até bestiais de enfermeiros e médicos contra pacientes indefesos e seus familiares aflitos. Aqueles que deveriam cuidar da vida, prestar socorro com paciência e zelo, de repente se transformam em algozes, em bárbaros, onde pessoas entre a vida e morte são tratadas como bichos de tanto faz. Um preconceito contra a doença, o doente, o necessitado, como se aquela vítima ou paciente fosse um estorvo, um fardo que não mereça um olhar verdadeiramente humano.

No meio social, dificilmente se encontra aquele que tem o outro como verdadeiro irmão, que o trata com carinho puro, com o afeto mais profundo que possa existir. Não é fácil avistar aquele que abraça o pobre como se tivesse abraçando a um pai ou a um filho, aquele que se revela amigo com suas feições mais positivas. Basta ter como exemplo a seguinte situação. Mesmo perante velhos e bons amigos de infância, quantos não os tornam como que esquecidos e vão atrás de estender a mão a poderosos desconhecidos? Juntos, o preconceito e a desonestidade moral.

Diga-se, por fim, que a cachorrinha de raça da madama não pode sequer passar perto de mendigo de calçada. A Luluzinha pode pegar doença de pobre: infecção, sujeira, imundície, pobreza mesmo. Mas a madama é a mesma que tudo faz para fingir seu arraigado preconceito. Faz parte de uma liga qualquer de assistência aos desvalidos e empobrecidos.


Nota do Editor: Rangel Alves da Costa é poeta e cronista. Mantém o blog Ser tão / Sertão (blograngel-sertao.blogspot.com.br).

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