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Crônicas
29/11/2019 - 05h38
Quando eu mato borboletas e colibris
Rangel Alves da Costa
 

Passei, e então um menino de repente se aproximou tocando em minha camisa, tentando dizer alguma coisa, mas não dei a menor atenção. Que coisa mais chata, inoportuna, e minha camisa tão limpa! Logo tentei me afastar daquela mão de mendicância e seguir adiante.

Mais à frente, achando-me no conforto do distanciamento da miséria humana, olhei para trás e avistei o menino. Que olhar mais tristonho! Certamente mais uma vez desapontado pelo que eu fiz. E ele só queria dizer que estava com fome e precisava de uma moeda pra comprar um pão.

Que traste humano eu sou. Quando e onde eu me esqueci das velhas lições de minha avó, sempre dizendo que a bondade faz bem ao coração e que não se deve negar àquele que está precisando. Minha avó certamente ficaria muito desgostosa com o neto que tem e com o que ele faz, assim como fez com o menino faminto por um pão.

É assim que a gente mata borboletas e colibris. É também assim que a gente esmaga flores, joga pedra em vidraças, chuta o lixeiro do jardim, arranca e joga fora o ninho de passarinho. Quem nega um pão a um faminto faz oração ao contrário, cospe na imagem sagrada, diz não quando pode dizer sim.

Que coisa mais sádica, mais insensível e humanamente degradante é matar borboletas e colibris, alguém poderia, acertadamente, dizer. Mas a gente vive matando borboletas e colibris a todo instante. A todo o momento a gente dizima pintassilgos, vaga-lumes, beija-flores, esperanças e pirilampos. Não há um segundo sequer que a gente não esteja maldizendo o sol, o lua, a estrelas, os astros do firmamento.

Não, não precisa que eu lance ferozmente meu sapato sobre a borboleta que mansa e belamente repousa no umbral da janela. Não, não precisa que eu mire a peteca atiradeira na direção do colibri para vê-lo cair despedaçado ao chão. Não, não precisa que eu faça assim. Mato borboletas e colibris com minha insensibilidade, com o descaso e a omissão, perante as coisas boas e belas da vida. Dizimo indefesos no jardim sem precisar devastar cada um, mas tão somente pelo meu desapego ao que há de mais singelo na vida: os encantos da natureza.

Mato colibris e borboletas quando não deixo que o menino de rua toque em minha camisa nem fale comigo, nada me peça. Ora, se eu faço isso com um ser infantil, marcado pelo sofrimento, carente e faminto, o que eu poderia fazer perante uma borboleta e um colibri? Também matá-los. E até mesmo pela ideia de que humanos podem ser simplesmente ignorados nas suas insignificâncias e os seres da natureza meramente dizimados, pois nada além que espécies sem nenhuma importância.

Quanta covardia em mim, quanta barbárie em mim. Sou gente, sou humano, possuo algum valor? Acaso eu tenha, ou ache que tenha, e por que não teria a borboleta e o colibri? Talvez a vida das espécies não valha nada, de nada é o viver de um sabiá, de uma seriema, de um galo de campina. E talvez pensem que uma gaiola é pouco: tem que matar. Vivemos num egoísmo que cega, num soberba que faz ignorar a tudo e a todos, numa vaidade que nem o ouro do Rei Midas nos servirá de exemplo de como não ser e não fazer.

Quantos rios eu penso que são colibris e vou simplesmente matando. Ora, sou humano e o homem gosta de destruir nascentes, leitos, bordas, vegetação ciliar. Sou pessoa, e coisa que a pessoa gosta é de envenenar água corrente, lançar esgotos doentios, tornar imprestável a vida nas águas. E quem mata colibris pode também matar cardumes, fazer com que as espécies aquáticas fiquem sem seu habitat natural para, que mais tarde, reste apenas o leito entristecido e vazio. E também para dizer: não fui eu, não tenho culpa alguma, nada tenho a ver com isso!

Se o bicho, o passarinho, a folhagem e a roseira, pudessem falar, não seria injusto se dissessem o quanto eu sou imprestável. Qual valia possui alguém que derrama a água da cuia para o bicho não ter o que beber, que corta a machado a árvore centenária, que envenena as gramíneas que nascem e verdejam pelos campos? Qual valia possui quem arranca cabeça de calango, assa passarinho em braseiro, aprisiona eternamente o canto de um coleirinho numa gaiola?

Aquele pobre menino não foi minha única vítima, certamente que não. Na sua inocência faminta, o garotinho ainda não entende bem das entranhas do mundo, ainda que padeça demais perante sua idade. Mais adiante, contudo, verá que os homens nasceram humanos e foram se bestializando por esforço próprio. A mais asquerosa das artes, mas no coração humano parece gestado o ofício do fazer sempre o pior.

Faz isso com o próprio homem, com o semelhante. E por isso de nenhuma importância será matar borboletas e colibris.


Nota do Editor: Rangel Alves da Costa é poeta e cronista. Mantém o blog Ser tão / Sertão (blograngel-sertao.blogspot.com.br).

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