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Opinião
24/04/2019 - 07h21
Corruptos têm de viver e pagar seus crimes
Dirceu Cardoso Gonçalves
 

Embora possa ser explorado emocionalmente, o ato extremo do ex-presidente peruano Alan Garcia, que se suicidou ao ter ordem de prisão por receber propinas da construtora brasileira Odebrecht, não é algo que o ilustre e nem sirva de parâmetro para outros políticos que cometeram o mesmo crime. Só o Peru possui três ex-presidentes também investigados e processados. As redes sociais brasileiras, dentro do clima tenso que vive o país em relação às apurações da Lava Jato e das prisões de seus criminosos de colarinho branco, chegaram a circular com sugestões para os corruptos daqui seguirem o exemplo do político peruano. Temos a certeza, no entanto, que tais pronunciamentos não correspondem à efetiva vontade dos brasileiros, mas apenas um desabafo diante da desfaçatez revelada tanto lá quanto cá.

Em hipótese alguma se admite que a vida - o bem maior de qualquer indivíduo - seja trocada pela impunidade ou por qualquer outro bem menor, seja ele pessoal ou social. O suicídio só ocorre quando o acusado resta demasiadamente perturbado e acaba por, erroneamente, sair do caso de forma trágica. Cada suicídio tem sua história e uma é diferente da outra. Diz-se que Getúlio Vargas teria escolhido dar um tiro no peito por vergonha de descobrir integrantes de sua equipe e confiança envolvida no atentado ao jornalista Carlos Lacerda, que acabou matando o major da Aeronáutica Rubens Florentino Vaz. Salvador Allende, do Chile, teria escolhido antecipar o fim da vida por saber que seria morto pelos adversários que sitiavam o Palácio da La Moneda, sede do governo.

Para a sociedade - que os envolvidos de alguma forma fraudaram - é importante continuarem vivos e com saúde suficiente para responder pelos crimes cometidos, fazer os ressarcimentos ainda possíveis e, evidentemente, cumprir os anos de prisão que a Justiça lhes determinar pelos atos antissociais praticados. A apuração severa e justa, além de recompor pelo menos parte do patrimônio público dilapidado, tem sua porção pedagógica, demonstrando à classe política e até ao cidadão comum, que o crime não compensa.

Já temos um ex-presidente preso, outros feitos réus em ações penais ou citados em delações que poderão também se transformar em ações cuja sentença final pode ser o cerceamento da liberdade. Isso sem falar dos ex-ministros, ex-governadores, ex-parlamentares e outros envolvidos presos ou processados. O momento é critico e de muita responsabilidade. O crime que um político consegue praticar contra toda a sociedade é demais grave para poder acabar com uma bala oportunisticamente disparada em qualquer parte vital do seu corpo. Precisamos de justiça séria e eficiente e de medidas que, entre outras coisas, devolvam a confiança do povo nas instituições e naqueles que, pela força do voto ou nomeação, são encarregados de operá-las...


Nota do Editor: Dirceu Cardoso Gonçalves é tenente da Polícia Militar do Estado de São Paulo e dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo).

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