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Crônicas
12/04/2019 - 07h48
Veneno de matar rato
Rangel Alves da Costa
 

Mesmo sendo proibido em muitas cidades, em muitos lugares é costumeiro encontrar pessoas vendendo veneno pra matar rato pelas calçadas. Mesmo sabendo que algumas pessoas compram o produto para outra destinação, e não raro para tentar contra a própria vida, continuam comercializando sem qualquer importunação.

Pois bem. Estava um desses vendedores anunciando seu produto, quando da esquina surgiu um sujeito todo entristecido, cabisbaixo, parecendo desnorteado de tudo. Ao ouvir o anúncio do veneno pra matar rato, logo ele apressou o passo naquela direção. Daí começaram a travar um estranho diálogo.

“Senhor, deseja comprar veneno pra matar rato?”.

“Sim. Quatro, cinco, uma quantidade grande. Mas só mata rato mesmo?”.

“Não. Quer dizer... Não sei nem como explicar, pois tem gente que usa pra outra coisa, que faz até maluquice...”.

“Não vai dizer que... Não, o senhor não tá pensando em fazer besteira, né?”.

“Não. Não estou pensando em fazer besteira. Estou pensando em fazer o que já deveria ter feito...”.

“O senhor está com algum problema?”.

“Sabe quando a pessoa está se sentindo imprestável, no esgoto, como um ser imundo pra viver, um verdadeiro...”.

“Um verdadeiro rato?”.

“Sim, um verdadeiro rato. E como se mata um rato?”.

“Com veneno de matar rato”.

“Sim. Quero morrer, não presto mais pra viver, me sinto um verdadeiro rato...”.

“Mas rato grande ou pequeno?”.

“Por quê?”.

“Porque é pelo tamanho do rato que posso saber a quantidade certa de tiro e queda”.

“Um rato qualquer, rejeitado do mundo...”.

“Rato de esgoto ou de cozinha?”.

“Por quê?”.

“Porque rato de cozinha é mais fácil de matar do que rato de esgoto”.

“Não entendi...”.

“Rato de esgoto tem estômago mais forte e não é pouquinho veneno que mata não. Então, como é o seu rato?”.

“Na verdade, nem rato sou, sou uma ratazana...”.

“Ratazana?”.

“Sim, sou uma ratazana abandonada pelo bofe. Ele não deveria ter feito isso comigo, me deixando assim perdida na rua da amargura”.

“Ah, agora entendi. É uma ratazana de esgoto e abandonada...”.

“Sim, uma pobre e triste alma que vive a vagar seus últimos instantes de vida. Dê-me todo o veneno que está aí...”.

“Vai levar tudo? Mas quer que eu lhe ensine como usar pra ser tiro e queda?”.

“Não precisa. Vou tomar aqui mesmo. Dê-me...”.

“Não. Aqui não. Pode morrer pra lá, mas aqui não...”.

“Aqui sim. Dê-me logo senão eu grito que você está me atacando...”.

“Endoidou?”.

Mas num descuido do vendedor, o sujeito lançou mão de um embrulho de veneno e colocou tudo na boca. Depois mais outro e mais outro.

Ante a situação, o vendedor tratou logo de fugir do local. Não com medo que o sujeito morresse ali mesmo, e sim temendo que ele descobrisse que o veneno era falsificado e que não matava nem rato nem gente.


Nota do Editor: Rangel Alves da Costa é poeta e cronista. Mantém o blog Ser tão / Sertão (blograngel-sertao.blogspot.com.br).

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