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Crônicas
11/04/2019 - 06h53
Altamira
Henrique Fendrich
 

Era Brasília, eram ainda os primeiros anos e eu prestava serviço para a usina hidrelétrica de Belo Monte, ainda em vias de construção no Pará. Dali, da capital do país, eu dava a minha contribuição a um dos mais polêmicos projetos de infraestrutura do Brasil recente. Seja dito, em meu favor, que eu não era favorável ao projeto. Aliás, coisa extraordinária: havia seis, sete pessoas trabalhando comigo no setor de comunicação, cada uma contribuindo na sua área para o sucesso da usina de Belo Monte, mas todas pessoalmente contrárias à hidrelétrica. Preferíamos ficar ao lado dos índios afetados pela construção. O caso era que precisávamos trabalhar, nunca foi fácil arrumar emprego e não poderíamos nos dar ao luxo de fazer aquilo com que concordávamos. É mais um daqueles casos de prostituição que o mercado exige.

Eu havia caído de paraquedas em Brasília, não tinha família nenhuma por lá e o número de amigos era cada vez menor. Ganhava pouco, mas a verdade é que também não gastava muito. Passava a noite e os finais de semana em casa, saindo apenas quando precisava comer, pois não havia fogão nenhum em casa. Em uma ou duas oportunidades cheguei a ser contaminado pelo vírus do concurso público, que atinge a todos em Brasília, onde a aprovação em um deles constitui o objetivo maior da vida, mas eu me recuperei a tempo. Iria continuar trabalhando ali onde eu trabalhava, para Belo Monte mesmo, pois os caras podiam ser malvados, mas pagavam em dia.

Um dia me chamaram. Não era o meu chefe, mas era alguém que tinha um cargo mais importante que o meu, um administrador de qualquer coisa. Ele sabia, vagamente, da minha história em Brasília, de como eu não tinha ninguém na cidade, e julgou que eu tivesse um espírito aventureiro. Era, portanto, o cara ideal para a proposta que ele tinha a fazer. Ele queria que eu me mudasse para Altamira, a cidade do Pará onde era construída a usina de Belo Monte. Evidentemente, eu ganharia muito mais, e também teria muito mais oportunidades de crescimento.

Altamira, não sei se vocês sabem, é a maior cidade em extensão do Brasil. Antes de Belo Monte, era mais uma dessas cidades do norte do país a que os brasileiros não costumam dar atenção nenhuma. Havia todo tipo de carências na cidade, mas a coisa mudara bastante desde que começaram as obras da hidrelétrica. Em verdade, no momento em que eu recebi esse convite, Altamira vivia um “boom”, com a população aumentando drasticamente e em pouco espaço de tempo - com todo o caos social que isso acarreta. Volta e meia eu lia notícia sobre alarmantes índices de violência na cidade. A infraestrutura, de toda forma, havia melhorado, sobretudo porque foi uma das condições para se construir a hidrelétrica.

Então eu me imaginei vivendo em Altamira, fazendo parte do turbilhão de gente arrastado até lá pela construção da hidrelétrica, eu me vi no meio de um ambiente muito diferente daquele em que eu nasci e fui criado. Brasília já era muito diferente de tudo o que eu conhecia, mas Altamira seria mais. A minha solidão seria ainda maior, e seria muito mais difícil fazer minhas visitas familiares ao sul do país. Nessa época eu vivia indo aos médicos, achava que estava sempre doente, mas era mais a minha cabeça. E lá em Altamira, pensei, não seria tão fácil achar os médicos de que eu precisava. A favor da minha ida, apenas o dinheiro, apenas o pé de meia que talvez eu conseguisse fazer, porque, lá ainda mais, não teria muito com o que gastar. Era só dizer “sim” e eu iria.

Ah, mas eu não sou um aventureiro, não. Sou muito mais a segurança. Se vim parar em Brasília foi pelas artimanhas do coração. Em Altamira não havia ninguém que me amasse. Recusei o pedido, e ainda acho que fiz certo, mas às vezes ainda penso nisso, sobretudo quando o dinheiro começa a apertar.

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