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SEÇÃO
Crônicas
08/02/2019 - 07h26
Indo mais além da cidade
Rangel Alves da Costa
 

Somente quem sai das esquinas, calçadas, bancos e muretas de praças, pode encontrar algo muito mais proveitoso pelos arredores, indo além da cidade. Somente indo além dos centros urbanos, ou daquilo que se tem como a nata da cidade, pode encontrar o estranhamento maravilhoso daquilo que este pertinho, mas que permanecia desconhecido.

Muitas vezes, basta apenas alguns passos, virar esquinas, alcançar os portais das estradas ou das veredas. Logo se tem outra feição da paisagem, da natureza, das existências ou redor. Uma flor de jurubeba brilha seu avermelho amarelado bem adiante. Que coisa mais linda! Logo vem à imaginação. Uma porta é aberta, uma cancela range, outro sertão vai surgindo.

Verdadeiramente, o sertão não é cidade, e sim o contexto maior que inclui os campos e os descampados, as estradas e sendas, os casebres e as construções, as malhadas e os currais, as portas humildes e as cozinhas toscas. Sim, pois o sertão está mais adiante e somente é melhor avistado e sentido mais adiante. Experimentem, pois, sair da cidade.

Experimentem caminhar por aí, como se diz. Experimentem experimentar o prazer de encontrar belezas em coisas tão simples e tão singelas. Experimentem dialogar com os silêncios dos horizontes e paisagens e conversar com os habitantes desse mundo: gente, bicho, pedra, planta. O que há além da cidade de Poço Redondo senão o tantas vezes e maravilhoso desconhecido? Ou mesmo o já conhecido que precisa ser revisitado.

Quando sigo pela estrada do Poço de Cima eu logo começo a experimentar isso tudo. Quando é tempo mais verdoso, chovido, o primeiro encantamento vem com o encontro das belas flores de jurubeba que ladeiam a estrada. Mas que besteira, alguém poderia dizer. Verdade que não é todo mundo que consegue sequer avistar um poético por do sol. Não é todo mundo que consegue ter as sensações despertadas perante uma flor de mandacaru, um ninho de pássaro, uma craibeira florida.

Apenas uma questão de maior ou menor sensibilidade. Mas eu me encanto com a florzinha vermelho alaranjada da jurubeba. Basta o encontro e o olhar para que em mim vão surgindo diversas indagações. E mais adiante, e por todo lugar, os casebres históricos, as marcas dos tempos idos, os sopros de vozes antigas, os mesmos passos daqueles primeiros desbravadores. O problema é que não basta apenas sair da cidade, seguir adiante. Necessário se faz que o caminhante dê sentido a cada passo.

O andante precisa dialogar com cada encontro, deve ter a sensibilidade de dar importância às pequenas e grandes coisas. Ora, tudo possui um sentido que precisa ser decifrado. Um mandacaru não é apenas um mandacaru, uma casinha de beira de estrada não é apenas uma casinha de beira de estrada, um curral antigo não é apenas um curral antigo. Sempre muito mais, pois tudo com uma razão de ser e de estar ali. Por isso mesmo que há muito que precisa ser encontrado além da cidade.

As pessoas de Poço Redondo precisam experimentar mais seus interiores e povoações, precisam conhecer comunidades, pessoas humildes, vidas que talvez nunca tenham saído de lá. Os jovens precisam conhecer suas nascentes históricas, os marcos do seu passado. Precisam desvendar pequenas feições que permaneceram escondidas mas que, quando conhecidas, tornam-se primorosas ao conhecimento.

Precisam conhecer as riquezas e as histórias ribeirinhas, precisam conhecer os marcos históricos do cangaço na região, precisam trilhar os caminhos das cachoeiras e das quedas d’água. Precisam perguntar o por que dos nomes dos lugares, saber de seus surgimentos, mostrar curiosidade acima de tudo. Não apenas saber, mas também conhecer. Há uma razão para o nome Curralinho, Cruz da Donzela, Aracaju. Por quê? Precisam saber.

Quantos em Poço Redondo conhecem alguma coisa o Território de Maria de Rosário? Nem um por cento. Mas precisam saber. Por que o nome Barra da Onça? Por que Queimada Grande? Será que já existiram muitas onças no passado de Poço Redondo? Será que os antigos habitantes faziam muitas coivaras, queimadas e limpeza de pastos através do fogo? Coisas até simples, mas que nem todos se preocupam em juntar seus retalhos. A verdade é que há muito a aprender no livro chamado Poço Redondo. E igualmente com relação a todo município e a todo povoação. Por que o nome Quilombo Serra da Guia? O que historicamente isto significa? Simples indagações que precisam ser conhecidas por todos.

Logicamente que o centro urbano é bom, é muito mais confortável do que estar suando e cansando pelos aléns do lugar. Logicamente que é muito bom sentar na calçada da Câmara de Vereadores e ficar tomando cerveja, falando de tudo e de nada e fofocando enquanto os outros passam, mas o viver exige mais que estes meros prazeres. Prazeres outros existem que alimentam muito mais. Basta sair da cidade e seguir seus caminhos.


Nota do Editor: Rangel Alves da Costa é poeta e cronista. Mantém o blog Ser tão / Sertão (blograngel-sertao.blogspot.com.br).

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