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Crônicas
07/12/2018 - 07h41
Confissões de Nor
Leandro Silva
 

Olá, tudo bem? Sou Nor. Nasci numa cidade pacata do interior do Rio de Janeiro. Perdi meus pais muito cedo - aos três anos de idade. Criado por terceiros, nunca tive uma vida serena e confortável. Mas não me faltou dignidade. Éramos quatro filhos, mas os incidentes dessa vida os tragaram brutalmente. Quanto a mim, não gostaria de lembrar do dissabor que passei, aos meus vinte cinco anos de idade, quando conheci Nora. Por causa dela que padeço nesse leito de dor. Meu corpo inteiro está enraizado por alguma doença. Aguardo, ansiosamente, o dia da minha sentença final. Quero aniquilar esta dor que nasceu em mim após a frieza da mulher que eu tanto amava - Nora. Ela era incrível; mãe de minha filha Nira; inteligente; encantadora; amava estar em família.

Mas como nada nesse mundo é perfeito... Um dia, daqueles que parece que o Sol nasce quadrado, percebi que alguma coisa não estava bem com Nora. Ela foi sorridente, mesmo sem motivos. Contudo, o brilho do seu sorriso foi minado por algo que, até então, eu não sabia. A gota d’água foi quando ela quebrou um paradigma da família. Lá em casa, em todas as refeições do dia, tínhamos uma tradição de sentar à mesa, reunidos, a fim de mantermos o legado deixado por nossos pais. No entanto, nesse dia, dona Nora não estava se sentindo confortável em estar junto com os seus entes queridos. Não sabíamos o motivo da tamanha recusa, mas a respeitamos.

Passei a madrugada toda olhando para o teto à procura de uma razão. Ao acordar para ir ao banheiro, vi que todas as minhas roupas estavam jogadas dentro de uma sacola de mercado com o seguinte bilhete:

- “Desculpe-me, mas não consigo mais sustentar meu fingimento quanto ao meu suposto sentimento por você. Vá embora! Não tenho mais condições de mentir para uma pessoa por quem, antes de se tornar meu esposo, eu tinha um grande apreço.”

Confesso-lhes que, naquele dia, eu me desiludi com a vida e entreguei-me à depressão. Não pude nem olhar nos olhos dela e ouvir, dos seus próprios lábios, qualquer desculpa que fosse.

Sem forças psicológicas para entender aquele fato, esperei o amanhecer do dia para, então, começar a vagar nesse mundo asqueroso. Naquele momento, a rua passou a ser minha companheira inseparável. A cada passo que eu dava, era um tropeço novo. A tristeza era tanta que eu chorava de soluçar. As pessoas que transitavam na rua não entendiam nada. Olhava para todos os lados e não a via. Quando mais precisei do abraço acolhedor e afetuoso de Nora, ela simplesmente me deixou largado às traças. Muito mais que um abandono repentino, ela desprezou a nossa história. Isso tem corroído a minha alma todos os dias. E hoje, aqui do meu lar (leito), vivo os meus últimos dias. Ando confuso. Gostaria de vê-la pela última vez. Mas eu sei que isto é impossível.

Antes de morrer, gostaria que muitos lessem essa história triste. Por isso que hoje resolvi exteriorizar o mal que há em mim. Essa dor só vai passar quando eu, não sei quando, passar dessa para melhor. Fui enganado por ela e, atualmente, estou sendo iludido por essas criaturas “angelicais” que vestem roupa branca e que pessoas os chamam de médicos. Eles estão escondendo algo de mim. Estou nesse leito já faz algum tempo. E, até hoje, ninguém esteve aqui a me visitar. Desde o dia em que desembarquei nesse hospital, já presenciei muitas pessoas sendo empacotadas e sendo levadas para a geladeira. Eu sei que o meu dia está se findando. Tento pensar na vida, mas a morte é uma questão de tempo.

Mas, se Deus me permitir escrever um pouco mais da vida que eu levo aqui nesse hospital, vou falar sobre o dia que Nara, minha sogra, até que tentou me alertar, mas a razão deu espaço para a emoção. Arrependo-me profundamente. Nara dizia que Nora, nos seus relacionamentos, sempre terminava sem dar nenhuma explicação. Ou seja, fui vítima de um amor que, aos poucos, está a me levar à morte. Sei que algumas pessoas vão me criticar após lerem esse relato, no entanto não posso levar esse caso para o meu túmulo. Espero ajudar algumas pessoas que vivem nessa mesma situação. Se você é uma dessas pessoas que perderam o encanto de viver por conta de uma desilusão amorosa, não se prenda a este mau sentimento. Caso contrário, seu dia de relatar suas confissões chegará.

Até mais, um abraço.

Nor.


Nota do Editor: Leandro Silva, 35 anos, é, modéstia à parte, niteroiense, casado com Aline Junior, autor do livro “Pais e Filhos”, Professor pela Universidade Gama Filho/RJ; Cursando a 2ª Licenciatura em Pedagogia pelo Centro Universitário Braz Cubas/SP; Técnico em Secretaria Escolar; Coordenador Pedagógico do Colégio Frônesis Christian School. Amante da literatura brasileira, do jornalismo investigativo, teatro e comida caseira.

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