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Opinião
10/08/2018 - 06h49
Não é [e não dá] pra entender
Dartagnan da Silva Zanela
 

O poeta alemão Johann Goethe dizia que a brevidade é a inimiga da clareza. E ele estava montado na razão quando afirmou isso.

Sim senhor! Mas essas palavras apenas fazem sentido quando o destinatário da missiva ou do colóquio realmente está interessado naquilo que está sendo comunicado.

Caso não esteja, sinto muito, mas, mesmo que utilize-se de todos os vocábulos presentes em nossa língua, mesmo que recorramos a todas as estratégias expositivas e refinamentos de estilo, a mensagem continuará sendo ininteligível. E assim o é pelo simples fato de que o caipora não quer entender.

Pouco importa o que você diga, o espírito de dois cantos sempre conseguirá encontrar uma forma para fazer-se de desentendido, sem perder, é claro, a sua pose de gente crítica e politicamente esclarecida. Aliás, esse tipo de gente adora, ama ser identificada, e identificar-se, com esse tipo de epíteto.

Detalhe importante: essa incapacidade é um traço característico de todas as almas obtusas que, dum modo geral, são tão fechadas que acabam sendo incapazes de reconhecer as limitações umbilicais que são impostas por elas mesmas ao seu campo cognitivo.

Só o fato de viverem apegados - feito mosca em excremento - a uma autoimagem tosca, já mostra o quão frágil é o caráter dessas pessoinhas com suas preocupações ocas com o tal do mundo melhor possível que, por sua deixa, lhes serve de subterfúgio para justificar as atitudes mais banais que podem ser cogitadas por uma pessoa alienada de si e do mundo. Quer dizer: por uma pessoa criticamente crítica que ignora tudo que contraria a sua forma turva de ver o mundo, girando em torno de seus devaneios ideológicos.

Exemplo: se você for assuntar com um caipora desse naipe ele irá, sem pestanejar, e com aqueles ares de suposta superioridade moral, falar que recicla todo o lixo de sua casa, que ele só anda de bicicleta, que ele não come margarina e blablablá.

Importante: não estou dizendo que fazer isso - reciclagem, usar bicicleta como meio de transporte e não comer (risos) margarina - não seja algo bom. Não mesmo. O “x” da questão é que fazer isso, sob a justificativa áurea de que o fazemos para salvar o mundo, não torna nenhuma, repito, nenhuma pessoa moralmente superior a outra. Só isso. Aliás, não são poucas as pessoas ruins feito a peste que nutrem preocupações desse gênero.

Difícil de entender? Penso que não. Quer dizer, é fácil se estivermos realmente dispostos a compreender que o mundo é bem maior e mais amplo do que aquilo que pensamos a respeito dele.

Porém, para algumas almas, envenenadas até o tutano com toda ordem de tranqueiras politicamente corretas, a sua autoimagem é a sua própria personalidade e aí meu velho, lascou-se tudo, porque não existe nada mais movediço e superficial que a imagem que um indivíduo constrói de si para si.

Sim, todos nós temos uma autoimagem, mas ela não pode, nem deveria, ser o centro de nossa personalidade, a coluna de sustentação de nosso caráter. Porém, para muitíssimas pessoas, ela é tudo isso. E aí meu amigo, para esses pobres diabos, imagem, realmente é tudo. Tudinho.

E tem outra: não existe tarefa mais alienante e bestificante do que ficarmos nos preocupando com a construção dum trem desse. Seria a mesmíssima coisa que ficarmos nos preocupando profundamente com o papel arroz que usaremos para enfeitar um bolo de aniversário e, ao mesmo tempo, ignorarmos por completo o recheio que será utilizado para confeitá-lo.

O recheio, obviamente, ninguém vê, mas é o que realmente importa, porque é o que realmente nos toca. O papel, que adorna a superfície, todos veem, mas na hora do vamos ver, todos o ignoram porque ele não tem substância alguma, nem sabor.

Por essas e outras que, imagino eu, Paulo Francis dizia que apenas os idiotas procuram a coerência. Somente esses e seus genéricos e similares são capazes de viver uma vida postiça, agrilhoada a uma imagem tosca de si mesmo, para que todos os demais idiotas, similares a ele, tenham uma “boa impressão” de suas pessoinhas.

Enfim, como muito bem descrevia o velho Machado de Assis, o fingimento era, ainda é e, ao que tudo indica, continuará sendo por muito tempo a pedra distintiva da brasilidade, especialmente daquela fatia que se considera esclarecida pra caramba. Fatia social essa que imagina, candidamente, que papel pintado seria sinônimo de autoridade e que inter-badalação grupal seja o equivalente a notoriedade.

Fim de prosa. Hora do café e dum cigarrinho de palha.


Nota do Editor: Dartagnan da Silva Zanela é professor e ensaísta. Autor dos livros: Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos - ensaios sociológicos; mantém o site Falsum committit, qui verum tacet.
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