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Crônicas
13/04/2018 - 05h14
Dona Zefa da Guia
Rangel Alves da Costa
 

De Poço Redondo, no sertão sergipano. Seu nome: Maria Josefa Maria da Silva Santos, ou simplesmente Zefa da Guia. Parteira, benzedeira, rezadeira, líder comunitária, líder espiritual, mulher do povo, dos santos, das raízes distantes, das crendices e dos encantados. Possui na linhagem o negrume da escravidão e do sangue indígena. Possui no olhar um espelho de onde brilham sua fé, sua crença, sua sabedoria, sua maestria no trato do homem, seu conhecimento das curas, seu entrelaçamento com os poderosos seres da natureza. Nascida na Guia, povoação quilombola ao redor da serra mais alta, vai lá no alto das raízes primeiras e de lá retorna como a guia de seu povo e do povo do mundo. Todo mundo procura Zefa da Guia e todo mundo por ela é recebido no seu viver de humildade. Quer uma reza, quer um benzimento, quer uma cura, quer que a parteira acuda sua mulher com dor de parir, quer que ela passe o ramo, quer que ela cubra de bençãos, quer que ela afaste todo o mal mundano, quer que ela faça uma guia para uma vida melhor? Então vá lá na Guia e procure Dona Zefa da Guia.

“Com este ramo te curo
com este ramo te guio
do seu corpo todo o mal
vai ser derrotado na cruz
pois nenhum mal do homem
vence o poder de Jesus
e todo mal que chegar
será ofuscado na luz...”

Uma Zefa que guia, uma Zefa que benze, uma Zefa que a vida cria e recria, uma Zefa que irradia nobreza e sabedoria. Uma Zefa lá da serra de longe, lá do quilombo na cor, lá perto dos mistérios do mundo e dos encantamentos da natureza. De lá ela guia, faz parto e dá vida, faz cura e manda todo o mal para onde o mal deva estar. Ela desce da serra, lá do alto do monte, com folhas e relicários dos encantados. Ela balbucia uma prece, passa o ramo pelo corpo, faz esturricar todo ramo e toda folha, e depois manda o cristão levantar para a vida. Onde ela estudou? Por que ela sabe tanto? Por que é assim tão sábia da natureza, da cura, das orações, dos antigos e poderosos rituais? Porque ela vem do alto, lá do alto da serra, e traz na sua mão e no seu olhar os ensinamentos do mais antigo dos livros: o livro da fé. E traz no seu peito uma guia. E por isso é Zefa da Guia, é a Zefa que Guia.

“Ramo que se curva em prece
para as mazelas afastar
vem da natureza sua força
e todo o poder de salvar
pois é o santo milagroso
que lhe recobre de benção
com a força desta oração
é a força do Pai maior
que dá paz ao coração...”.

É uma Zefa mulher, é uma Zefa que guia. O toque de sua mão, o caminhar de seus dedos, seu olhar de proteção. Que vá embora o mau-olhado, que vá embora o corpo alquebrado, que as forças do mal vão embora pela intercessão de seu gesto, de sua prece, do seu ramo de folha. Crê nos encantados da natureza, nos ensinamentos do alto da serra, mas crê muito mais em Deus. Sabe que a cura só vem de Deus. Assim a guia de Dona Zefa. Assim Dona Zefa da Guia.


Nota do Editor: Rangel Alves da Costa é poeta e cronista. Mantém o blog Ser tão / Sertão (blograngel-sertao.blogspot.com.br).

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