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SEÇÃO
Crônicas
12/04/2018 - 05h47
Medo de bom dia
Marina Alves
 

Vivemos tempos estranhos. Fugir das pessoas na rua, não atender à porta, olhar pelo olho mágico, frestas de cortinas, ligar pra polícia em caso de alguém rondando, anotar placas de carros, não dar papo pra desconhecidos, não socorrer feridos em estradas e jamais, jamais dar carona à pessoa estranha, estas são só algumas das atitudes que incorporamos ao nosso dia a dia para não correr — ou pelo menos minimizar — riscos, colocando nossa preciosa vida em perigo.

Tempos de medos, em que até o básico da boa educação não pode ser exercido. Cresci ouvindo que cumprimentar as pessoas faz parte dos hábitos de qualquer indivíduo que se considere minimamente bem educado. Meu pai era tão rígido quanto a isso que até uns tapas a gente levava, quando passava pelos respeitáveis senhores que iam conversar na nossa sala de visitas e não dizia em alto e bom som um solene bom dia!

O que são os hábitos cultivados em família e aprendidos com nossos pais, como essenciais? São hábitos para sempre, os quais nos custa muito deixarmos de lado. Naquele tempo em que os aprendi eu não sabia que chegariam tempos em que não poderia dizer com liberdade um simples bom dia às pessoas na rua, indo ou vindo para casa, no trajeto do trabalho.

Infelizmente evoluímos para isso. Qualquer pessoa com que cruzamos, que não seja do nosso convívio, representa um perigo em potencial. Se levantamos os olhos, podemos estar encorajando um assalto, ou um assédio, coisas do imprevisível. A que ponto chegamos? Viramos seres encasulados, soturnos, fugidios, e conviver com nossa própria espécie tornou-se razão para graves temores — fundados ou não.

Tão antigo quanto o próprio mundo é o dito popular “Quem fala demais dá bom dia a cavalo”. Entende-se aí que não é bom falar demais. Regredimos. Agora não basta que se fale de menos, é necessário também que não se dê bom dia: nem a cavalo, nem a ninguém. Melhor mesmo, e mais seguro, é seguir sempre calado, de preferência com olhos no chão. Tenho a impressão de que viveremos um tempo de corcundas. O hábito de baixar a cabeça e forçar o pescoço em direção ao chão criará um mundo de encurvados. E temo que esse mal se reverta em outros males bem piores. Alguém duvida?

Hoje fiquei assim, mal, muito mal. Alguém passou por mim, e me disse bom dia. Era tão suspeita, a pessoa — no meu já incorporado padrão de julgamento — que preferi ignorar. Por medo, por puro medo não respondi e apertei o passo. A que ponto cheguei? Ao ponto de ouvir um sonoro: “Mas que falta de educação!”. Dizer o quê? Nada, apenas seguir me perguntando: o que diria meu pai se estivesse por perto?

Pois bem, ainda bem que existem os famigerados "bom dia!" do WhatsApp, do contrário estaríamos completamente relegados aos maus dias... Santa ironia!

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