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Crônicas
11/03/2018 - 06h58
Maria do Chico Antero
Marina Alves
 

Quando a moça da recepção perguntou-lhe o nome, ela respondeu no automático:

- Maria do Chico Antero.

Em seguida, percebendo a expressão desentendida da atendente, ela se apressou a explicar:

- O Chico Antero do gás, menina!

Mas a menina continuou com o mesmo ar indagador, e insistiu:

- Preciso fazer a ficha... O nome completo da senhora, qual é?

Com visível desagrado, ela tirou a carteirinha da bolsa e estendeu para a moça copiar: Maria Fidelina do Bom Despacho. Ah, não gostava daquele nome esquisito com que lhe tinham batizado. Por isso, desde que se casara tinha encurtado Maria Fidelina do Bom Despacho para Maria do Chico Antero. Mas não era só pelo nome que não lhe agradava, era também porque lhe dava gosto ser identificada daquela forma.

Ainda descontente, ela se sentou na cadeira que a moça lhe indicou, esperando ser chamada pelo doutor que lhe tratava a catarata. E ali se remoía: como é que a moça lerdinha não sabia quem era Chico Antero? O marido era homem conhecido no bairro. Nasceu, cresceu e viveu ali nas imediações. Quando o conheceu ele era disputado pelas moças. Tinha dado muita sorte de ter sido escolhida por ele para casar. Quantas tinham se mordido de inveja dela, naquela época?

Maria trabalhava como arrumadeira quando conheceu Francisco Antero, que entregava gás na casa de seus patrões. Namoro curto, e ela saiu do emprego para se casarem. Tá certo que desde o começo tinha já visto: Chico Antero era um bruto, grosseirão, de pouca conversa e cara amarrada. Mas que outras escolhas ela tinha, para se dar ao luxo de recusar a oferta de dividir com ele o barracão na Rua da Ribeira?

Também era verdade que, mesmo tendo prosperado no ramo do gás, Chico não lhe dava qualquer luxo, e quando bebia lhe desferia socos que a deixavam por uns dias de olhos roxos. Mas tiveram filhos e ela precisava dele pra criar os meninos. E afinal o que tinha demais nuns safanões, se ele mantinha as contas pagas e a despensa abastecida? - pelo menos arroz, feijão, farinha, sal, óleo e macarrão nunca faltavam. Tinha mulher que vivia em situação muito pior, ela sabia. Dava era graças a Deus de ter sido amparada pelo Chico, isso sim!

Sabia também das escapadas do marido com as outras das ruas, mas qual o quê? Isso era coisa de homem, esquentar cabeça? O importante é que ela lhe era fiel, tanto que seu próprio nome o dizia: Maria Fidelina. E seria fiel até a morte. Fosse ele mais carrasco que já era, ela jamais se rebelaria. Tinham lhe dito que era preciso carregar a cruz, e era o que faria até o fim de seus dias.

Coisa que irritava Maria Fidelina era dar de cara com gente que lhe ignorasse o marido. Aos olhos dela, Chico era homem importante, tinha o serviço de entrega de gás, e ela se orgulhava de ser mulher dele. Verdade que era mesmo um casca grossa, mandão, ciumento, pirracento, e emburrava por um nada, mas quantas por aí, nem marido tinham? E pensava sempre que ele podia ter escolhido uma moça mais bonita e mais sabida que ela, tão despida de graça, mal sabendo rabiscar nome.

Naquele oito de março, na TV ligada da recepção, Maria assistia às homenagens pelo Dia Internacional da Mulher. Mas por sua cabeça não entrava a fala de uma dona especialista, explicando que hoje em dia ser mulher não é mais como antigamente: as mulheres são mais livres, têm vontades próprias, seguem os caminhos que desejam, têm suas profissões, ganham seu dinheiro, não dependem tanto dos homens... Não. Pela cabeça de Maria Fidelina, submissa e fiel até a morte - e sem entender outra forma de existir - não entrava tanta modernidade. A voz da moça lerda a sacudiu:

- Sua vez, dona Maria Fidelina...

Ela levantou-se e seguiu rumo à porta do doutor da catarata. Não sem antes passar pela lerdinha que olhava a TV, e dizer em alto e bom som:

- Maria do Chico Antero!

* Por todas as mulheres que ainda vivem em condição de total submissão, sem entenderem que existem outras formas de viver.

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