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SEÇÃO
Crônicas
12/01/2018 - 06h47
Então senta que lá vem história...
Rangel Alves da Costa
 

Nas plagas sertanejas, contudo, história contada e recontada, passada de boca em boca, possui a denominação de causo ou proseado. São, pois, os causos e proseados que tanto povoam e animam os diálogos matutos debaixo de pés de pau ou nas calçadas ao entardecer. Certamente que nem tudo pode ser tido como veracidade – e na maioria não passa de lorota -, mas ainda assim o surpreendente em cada nova estória (ou história) transmitida.

Neste sentido é aqui adiante segue uma junção de causos e proseados, todos oriundos da mesma fonte, envolvendo “conversas” de caçador, sempre tão intrigantes quanto aquelas de pescadores. Tenha-se, contudo, que nem tudo pode ser tido como invenção ou mentira, pois no mundo sertanejo há mesmo o espantoso, o fantástico e até o impensável. De resto, depende muito de quem escuta e a crença que tenha.

Disse Bastião que suas caçadas sempre se deram no meio da noite adentrando a madrugada. E quase sempre apenas na companhia de seu cachorro. Nunca temeu se embrenhar na mata no meio da escuridão, mas em algumas situações já se deparou com situações de arrepiar os cabelos. Por mais encorajamento que tivesse, difícil não temer o pior perante certos inusitados.

Certa vez, disse ele, sozinho no mato, em noite fechada, seguindo numa vereda conseguiu avistar alguém vindo logo adiante, em sua direção. Estradinha estreita, sem caber os passos de duas pessoas, quanto mais o vulto de um homem alto e magro se aproximava mais ele sentia que tinha de dar passagem, pois não parecia que o estranho viesse com intenção de afastar nenhum tantinho do meio do caminho.

Então Bastião teve de sair para a passagem do outro. Em silêncio vinha e em silêncio passou, sem que pudesse sequer avistar a inteireza de sua feição, dado o sombreado que lhe tomava de corpo inteiro. Que coisa mais esquisita, pensou o caçador. Como é que um cabra passa assim por outro, num meio de mundo desse e nessa escuridão toda e sequer cumprimenta, começou a indagar. Foi quando sentiu que seu cachorro sequer tinha latido ante a presença do estranho. Então disse a si mesmo, procurando logo se afastar: Só não é gente desse mundo!

Visões de coisas do outro mundo são constantes durante as caçadas noturnas, assegurou Bastião, e muito mais se o encalço catingueiro envolver veado. Não há animal de caça que traga mais problema ao predador humano. Então contou sobre o acontecido com outro caçador conhecido seu que subiu numa árvore de copa larga e galhagem vasta para tocaiar o bicho. Subiu, se ajeitou, e ficou espiando mais abaixo, na direção da passagem. Estava tão entretido observando a movimentação lá embaixo, que quase nem percebe quando outro caçador subiu na mesma árvore e se posicionou bem ao lado.

Não demorou muito e ouviu do estranho que o veado já estava chegando. Dito e feito. Logo o animal surgiu com olhos brilhosos no meio da noite. Então o estranho mandou que mirasse para atirar, mas o caçador relutou e pediu para que o outro mesmo fizesse o serviço. Este rejeitou pedindo que atirasse logo, sob pena de fuga do bicho. Sem mais a fazer, deu um tiro certeiro. Mas logo em seguida ouviu do estranho que se preparasse novamente, pois outro veado estava chegando. Achando estranha demais aquela situação toda, o caçador exigiu que dessa vez o outro mesmo atirasse.

Contudo, não houve jeito de o estranho fazer mira. Coube ao caçador novamente apontar e derrubar o segundo veado. Depois disso, quando disposto a saber quem realmente era aquele sujeito aparecido assim de repente e tão conhecedor de caçada, nem precisou fazer qualquer pergunta. O estranho adiantou-se e falou: “Quando eu era vivo era aqui que eu mais caçava”. E depois desapareceu sem descer da árvore. Apenas sumiu do local onde estava.

Outro causo intrigante também envolvendo caça ao veado foi relatado por Bastião. Disse que um conhecido seu matou um veado, levou a presa morta à casinhola onde morava, abriu o bicho, separou a carne do couro e estendeu o focinho numa ponta de pau adiante. Mandou a esposa preparar parte da carne para o almoço. Ao retornar, contudo, o focinho havia sumido. Estranhou demais tal acontecido, mas imaginou que outro animal tivesse passado por ali e abocanhado. Então esperou o almoço ficar pronto e comeu daquela carne nova. Daí em diante se sentiu tomado de febre, tremores frios e dor de cabeça. E não houve remédio que desse jeito.

Como nem a farmácia nem a medicina resolvia o problema, a saída que encontrou foi procurar um rezador. E assim fez. Quando chegou à casa do homem nem precisou abrir a boca. O rezador logo perguntou se ele havia matado um veado e comido de sua carne e desse dia em diante nunca mais teve saúde. Espantado com tamanha revelação, o caçador confirmou, para ouvir em seguida: “Aquilo que você matou não era um veado não. Foi um cavalo do cão. E se quiser continuar vivendo de agora em diante nem pense mais em caçar qualquer bicho. Pegue sua espingarda e dê fim. Do contrário será o seu fim”.

E assim prosseguia Bastião, deleitando os presentes com suas histórias. E sobre se o homem deu fim à espingarda e nunca mais caçou? Ora, para caçador tanto faz a vida do bicho, mas a sua procura garantir de todo jeito.


Nota do Editor: Rangel Alves da Costa é poeta e cronista. Mantém o blog Ser tão / Sertão (blograngel-sertao.blogspot.com.br).

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