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SEÇÃO
Crônicas
11/01/2018 - 06h54
Filho pródigo
Henrique Fendrich
 

Lá vou eu para a terra em que vi a luz pela primeira vez. A cada ano, Curitiba se afasta cerca de 10 centímetros de São Bento do Sul. É por isso que uma viagem de ônibus entre as duas cidades, que antigamente levava menos de duas horas, hoje leva no mínimo duas horas e meia. Daqui a alguns séculos, Curitiba estará onde hoje é São Paulo, e então já será possível fazer o trajeto de avião. Darei graças a Deus quando esse dia chegar, porque não precisarei mais andar nos horríveis ônibus que fazem tal trajeto. De certo o avião não precisará parar em Agudos.

São Bento do Sul! Este é o único canto do país em que não preciso soletrar meu sobrenome. Em compensação, todos me perguntam se eu sou parente do pessoal do açougue, porque tem um Açougue Fendrich na cidade, e um açougue tradicionalíssimo, de mais de cem anos, um açougue que há algum tempo ameaçou fechar, provocando uma consternação geral. Não fechou o açougue, e eu continuo tendo que dizer que sou parente sim, claro, mas é coisa do avô do dono ser irmão do meu bisavô, por aí.

Genealogias, histórias, coisas que me vêm à mente enquanto caminho pelas ruas. Desde que saí de São Bento, eu me especializei no passado da cidade. Posso ver o nome de uma rua e dizer quem foi e o que fez. Posso ver um prédio e dizer o que funcionava ali antigamente. Mas normalmente eu não digo nada, que não é muito agradável caminhar ao lado de uma enciclopédia. Tenho alguns marcos pessoais pelas ruas também, até hoje me lembro da esquina onde perdi um amor – revivo a mesma cena.

Aqui eu nasci, cresci, mas não cheguei a me reproduzir. Saí da cidade para fazer faculdade, porque em São Bento não tinha o meu curso: eu queria fazer jornalismo – as idéias que me passam pela cabeça! Tivesse ficado na cidade, feito um desses cursos voltados para o moveleiro, eu provavelmente estaria hoje empregado. Mas não, saí da terrinha, fui viver a vida da cidade grande. Voltava no final do ano e achava tudo estranho: como é que as pessoas davam conta de viver no interior? Fiquei tão distanciado que chegava a notar o sotaque dos são-bentenses.

Apesar de tudo, tenho uma certa popularidade na vida virtual de São Bento, e enquanto caminho eu temo a todo momento ser reconhecido por alguém. Temo ou desejo, não estou bem certo. Porque eu já me tornei um curitibano nato, daqueles que mal cumprimentam a própria mãe. Ah, é tão difícil socializar! Mas não encontrei ninguém, e em certo momento isso me deixou triste...

Sou uma espécie de filho pródigo. Juntei tudo o que era meu, parti para um lugar longínquo e ali dissipei todos os meus bens. Não exatamente de forma dissoluta, mas sem dúvida sem muita sabedoria. Veio então terrível crise sobre o país e comecei a passar necessidade. Lembrei-me então dos honestos operários são-bentenses que têm pão com fartura. E voltei para a cidade a fim de dizer que havia pecado e que não era digno de ser seu filho. O que eu não contava é que não tivesse banquete nenhum me esperando, nenhum novilho para comer e regozijar.

Paciência! Dou uma passada pelo centro, pela praça que devia mudar de nome, e volto para a rodoviária. E pior: dessa vez nem experimentei um cuque de banana.

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