17/12/2017  06h10
· Guia 2017     · O Guaruçá     · Cartões-postais     · Webmail     · Ubatuba            · · ·
O Guaruçá - Informação e Cultura
O GUARUÇÁ Índice d'O Guaruçá Colunistas SEÇÕES SERVIÇOS Biorritmo Busca n'O Guaruçá Expediente Home d'O Guaruçá
Acesso ao Sistema
Login
Senha

« Cadastro Gratuito »
COLUNISTA
Marcelo Sguassábia
08/05/2017 - 06h58
Diário, seu inútil
 
 

Escrever um diário pressupõe a tentativa de não deixar tudo por conta da volátil memória humana, de capturar um pouco do que se vive hoje para degustação futura. Isso significa registrar o que de objetivamente acontece mas também, e principalmente, o subjetivo de cada experiência – ou pelo menos dos acontecimentos principais. Sem esse detalhamento, um diário não tem função.

Se excessivamente sumário, um típico dia de semana de um sujeito de classe média, com perfil no Instagram e vacinado contra caxumba, traria algo assim:

05 de maio de 1980, segunda–feira. Acordei às seis. Exercício das 6h05 às 6h35. Café da manhã. Trabalhando das 8 às 12h. Almoço das 12 às 14h. Trabalhando das 14 às 18. Jantar. Assistindo televisão até 23h30.

Imagine isso sendo lido décadas depois. Sem detalhamento essa descrição de tarefas não significará nada, pois não reconstituirá aquele dia na mente de quem o viveu. Pior: levando em conta o fato de que a rotina, justamente por ser rotina, tende a se repetir, todos os registros serão muito iguais – à exceção de um ou outro episódio mais marcante, a ser resumidamente descrito pelo preguiçoso memorialista. De onde se conclui que um diário é tanto mais eficiente quanto mais detalhado puder ser.

Por outro lado, partir para um diário excessivamente descritivo também será perda de tempo. Vamos supor um início de diário aos 20 anos e término aos 70. Calculando uma expectativa de vida de 80, nosso registrador de fatos terá apenas 10 anos para ler o relato em detalhes de tudo o que vivenciou ao longo de 50. Afinal, foi com a intenção ler um dia suas recordações que ele decidiu encarar a empreitada. Acontece que não faz sentido ele gastar seus últimos 10 lendo o que viveu, ao invés de viver o que lhe resta. Parece exagero falar em 10 anos de leitura. Porém, por mais que geralmente sobre mais tempo aos idosos, eles tendem a executar tudo mais lentamente, e a depender da prolixidade do diário, será essa a sua tarefa principal até bater as botas.

A inutilidade do diário não para por aí. Relatos detalhados incluem opiniões do autor a respeito de outras pessoas, nem sempre muito elogiosas. Deixar isso por escrito para a posteridade pode ser perigoso, comprometedor e, dependendo do naipe dos personagens, trazer boas encrencas jurídicas. Para evitar aborrecimentos, seu dono terá que exterminá–lo antes de morrer. E se morrer de repente não poderá fazê–lo, deixando de herança uma bomba de imponderável potencial de destruição.

04 de março de 2017, sábado. Se pensa em começar o seu, desista. Se já tem, toque fogo.


Nota do Editor: Marcelo Pirajá Sguassábia é redator publicitário em Campinas (SP), beatlemaníaco empedernido e adora livros e filmes que tratem sobre viagens no tempo. É colaborador do jornal O Municipio, de São João da Boa Vista, e tem coluna em diversas revistas eletrônicas.
PUBLICIDADE
ÚLTIMAS PUBLICAÇÕES SOBRE "CRÔNICAS"Índice das publicações sobre "CRÔNICAS"
16/12/2017 - 08h17 Nícia Guerriero
15/12/2017 - 07h27 A melhor comida
14/12/2017 - 05h49 Jogava bola e era amado
13/12/2017 - 07h43 Preconceitos sempre atrapalham a vida
12/12/2017 - 08h36 Na urbe: desorientados, desnorteados e largados
11/12/2017 - 07h37 Por fim, a salvo
ÚLTIMAS DA COLUNA "MARCELO SGUASSáBIA"Índice da coluna "Marcelo Sguassábia"
04/12/2017 - 07h23 Pratic Christmas
27/11/2017 - 06h48 Chato pra morrer
20/11/2017 - 07h18 Por que não o jaleco branco nos bonecões de ar?
13/11/2017 - 07h38 Homenagem à Vó Tinhoca
06/11/2017 - 07h42 Asnos volantes: seu fim está próximo






· FALE CONOSCO · ANUNCIE AQUI · TERMOS DE USO ·
Copyright © 1998-2017, UbaWeb. Direitos Reservados.